
Comentário: Jafar Panahi (1960) é um cineasta iraniano que desde 2010 está proibido pela justiça iraniana de filmar ou sair do Irã sob a acusação de estar mostrando o regime de repressão que o povo iraniano vive, algo que o governo chama de “fazer propaganda contra o governo iraniano". Em 2022, Jafar Panahi foi preso e só foi libertado em fevereiro de 2023, após uma greve de fome. Mesmo assim Panahi está dando um jeito de filmar. Assisti dele os excelentes "O Balão Branco" (1995) e "O Espelho" (1997), "Taxi Teerã" (2015) e "3 Faces" (2018), além do documentário "Isto Não É Um Filme" (2011). . Desta vez vou conferir "Sem Ursos" (2022).
Paulo Henrique Silva do site O Tempo nos diz: “Em determinado momento de ‘Sem Ursos’, em meio a um lugar ermo e na escuridão, o diretor Jafar Panahi é informado por seu assistente que ele está justamente na fronteira iraniana, onde, em negociação com contrabandistas, poderia deixar o país que vem prejudicando a sua carreira, a ponto de não deixá-lo sair do território (...). A partir dessa situação, podemos notar três linhas narrativas no filme. (...) Uma delas é metalinguagem, em que o realizador tem na exploração desses bastidores uma forma de falar de sua situação política, colocando-se quase sempre em primeira pessoa, como protagonista, criticando um regime ortodoxo que proíbe a liberdade de expressão. Apesar de ser um artifício comum ao cinema iraniano, a escolha de Panahi o tem acompanhado desde 2010, quando foi sentenciado a não sair de casa e não usar uma câmera. São cinco filmes, que mesclam o documentário e a ficção. Desta vez ele é mais sutil, adotando uma posição de observador. Embora sua história de perseguição esteja fortemente presente, Panahi acompanha dois casos românticos. Essa é a segunda linha narrativa de ‘Sem Ursos’, quando dois casais enfrentam problemas para materializar o seu amor em face à política e à cultura do país, ambas imbricadas pela religião. O diretor toma contato com essas histórias a partir de sua câmera, não necessariamente de uma ação voluntária. O fato de mirá-la para algum lugar suscita questionamentos e problemas. É quando entramos no terceiro movimento do filme, na imposição de uma atmosfera de medo que o atravessa. Um receio que não está apenas na atitude de Panahi em logo sair da fronteira e retornar para a casa onde está hospedado. Dos contraventores à própria comunidade, as pessoas parecem vigiadas constantemente - curiosamente, um ‘Grande Irmão’ sem câmeras e aparatos de monitoramento.
Talvez este seja o trabalho mais triste do cineasta, que, após tantos anos se manifestando politicamente, fazendo de seus filmes importantes alertas sobre a tentativa (parcialmente bem-sucedida) de calar o artista, Panahi parece conformar-se em perceber que não é preciso mais o Estado estar presente para criar paranoia, medo e julgamento. Tudo isso já está entranhado na sociedade iraniana”.
O que disse a crítica: João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: “Dizem os veteranos que a necessidade e a coragem são as mães da invenção cinematográfica: o fato é que Panahi adaptou sua linguagem (e a metalinguagem) dentro desses limites, encontrando uma fórmula poética, se é que cabe o emprego do adjetivo, para expressar-se. Até quando a fórmula vai funcionar é outra questão. Um regime autoritário como o iraniano é capaz de dar vazão a uma expressão audiovisual moderna e sutil, veiculando uma atmosfera política pesada em estado latente, quase imperceptível, mas presente. Mais uma contradição desse país riquíssimo em tradições culturais, e contido numa religiosidade conservadora e fundamentalista. Os filmes de Panahi são extensão da sua própria vida, do seu embate diário para exercer o ofício - e claro, seus impasses ganham relevo pela repercussão internacional de suas produções”.
Arthur Gadelha do site Ensaio Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “’Sem Ursos’ (...) é mais um inesquecível capítulo do cinema iraniano de ‘filmar o cinema’, a irreverente metalinguagem de um cineasta que precisa constantemente reinventar sua própria criatividade. Ironicamente, mesmo mais de 10 anos depois do seu primeiro manifesto com um ‘não-filme’, ele não pôde estar presente na sessão de estreia deste quando foi exibido em Veneza porque ainda estava detido. Ou seja, a grande virada que sua carreira deu após a pública repressão sobre sua existência é de uma constância inevitável porque, francamente, como evitar falar disso? Diante da censura e da perseguição, como Panahi poderia filmar o mundo sem a própria epifania que é poder filmá-lo? Como filmar outra coisa senão fronteiras? Fronteiras entre países, entre culturas, entre liberdade e prisão, entre passado e futuro, entre a vida e a ficção do cinema, das tradições, das religiões, das cidades e de si mesmo”.
O que eu achei: Para quem não acompanha a vida do cineasta Jafar Panahi vale saber que ele foi preso em 2010 por fazer propaganda contra o governo, mas conseguiu liberdade condicional, embora impedido de sair do país e banido de dirigir filmes por vinte anos. Em 2022, quando visitava o Ministério Público local com advogados e colegas para saber como estavam outros dois cineastas, Mohammad Rasoulof e Mostafa Aleahmad, ele foi novamente detido e condenado a seis anos de cadeia. Depois de iniciar uma greve de fome, Jafar foi solto sob fiança, ainda em 2022, quando rodou este filme. Muitos desistiriam de filmar perante tamanha perseguição mas ele, ao contrário, fez do limão uma limonada, e vem apresentando filmes que abordam a questão. Neste “Sem Ursos” Panahi é o cineasta que está com sua liberdade cerceada e resolve dirigir um filme remotamente, através do seu laptop, dando as orientações para que sua equipe grave as cenas em outro local seguindo suas instruções. Ele está hospedado num vilarejo na fronteira entre o Irã (sua terra natal) e a Turquia. Enquanto isso vamos acompanhar os moradores do vilarejo que o procuram para ajudar com uma questão: um rapaz desconfia que está sendo traído por sua prometida e, como Panahi andou tirando fotos do local, quem sabe ele não teria uma prova dessa traição. O resultado é, como sempre, um filme singular e inteligente, como tudo o que ele faz. Se estamos na fronteira física entre Irã e Turquia, estamos também na fronteira entre documentário e ficção e no limite sobre a ética das imagens. Imperdível. Atenção ao final dos créditos do filme onde aparece uma homenagem à Hengameh Panahi. Ela foi uma produtora iraniana, estabelecida na França, que desempenhou um papel importante na produção, financiamento e venda de direitos internacionais para vários filmes de conteúdo político, como “Taxi Teerã” de Jafar Panahi, por exemplo. Ela faleceu em 2023 aos 67 anos. Fica aqui um agradecimento à Hengameh, pois é graças à pessoas assim que podemos assistir a essas maravilhas.
O que disse a crítica: João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: “Dizem os veteranos que a necessidade e a coragem são as mães da invenção cinematográfica: o fato é que Panahi adaptou sua linguagem (e a metalinguagem) dentro desses limites, encontrando uma fórmula poética, se é que cabe o emprego do adjetivo, para expressar-se. Até quando a fórmula vai funcionar é outra questão. Um regime autoritário como o iraniano é capaz de dar vazão a uma expressão audiovisual moderna e sutil, veiculando uma atmosfera política pesada em estado latente, quase imperceptível, mas presente. Mais uma contradição desse país riquíssimo em tradições culturais, e contido numa religiosidade conservadora e fundamentalista. Os filmes de Panahi são extensão da sua própria vida, do seu embate diário para exercer o ofício - e claro, seus impasses ganham relevo pela repercussão internacional de suas produções”.
Arthur Gadelha do site Ensaio Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “’Sem Ursos’ (...) é mais um inesquecível capítulo do cinema iraniano de ‘filmar o cinema’, a irreverente metalinguagem de um cineasta que precisa constantemente reinventar sua própria criatividade. Ironicamente, mesmo mais de 10 anos depois do seu primeiro manifesto com um ‘não-filme’, ele não pôde estar presente na sessão de estreia deste quando foi exibido em Veneza porque ainda estava detido. Ou seja, a grande virada que sua carreira deu após a pública repressão sobre sua existência é de uma constância inevitável porque, francamente, como evitar falar disso? Diante da censura e da perseguição, como Panahi poderia filmar o mundo sem a própria epifania que é poder filmá-lo? Como filmar outra coisa senão fronteiras? Fronteiras entre países, entre culturas, entre liberdade e prisão, entre passado e futuro, entre a vida e a ficção do cinema, das tradições, das religiões, das cidades e de si mesmo”.
O que eu achei: Para quem não acompanha a vida do cineasta Jafar Panahi vale saber que ele foi preso em 2010 por fazer propaganda contra o governo, mas conseguiu liberdade condicional, embora impedido de sair do país e banido de dirigir filmes por vinte anos. Em 2022, quando visitava o Ministério Público local com advogados e colegas para saber como estavam outros dois cineastas, Mohammad Rasoulof e Mostafa Aleahmad, ele foi novamente detido e condenado a seis anos de cadeia. Depois de iniciar uma greve de fome, Jafar foi solto sob fiança, ainda em 2022, quando rodou este filme. Muitos desistiriam de filmar perante tamanha perseguição mas ele, ao contrário, fez do limão uma limonada, e vem apresentando filmes que abordam a questão. Neste “Sem Ursos” Panahi é o cineasta que está com sua liberdade cerceada e resolve dirigir um filme remotamente, através do seu laptop, dando as orientações para que sua equipe grave as cenas em outro local seguindo suas instruções. Ele está hospedado num vilarejo na fronteira entre o Irã (sua terra natal) e a Turquia. Enquanto isso vamos acompanhar os moradores do vilarejo que o procuram para ajudar com uma questão: um rapaz desconfia que está sendo traído por sua prometida e, como Panahi andou tirando fotos do local, quem sabe ele não teria uma prova dessa traição. O resultado é, como sempre, um filme singular e inteligente, como tudo o que ele faz. Se estamos na fronteira física entre Irã e Turquia, estamos também na fronteira entre documentário e ficção e no limite sobre a ética das imagens. Imperdível. Atenção ao final dos créditos do filme onde aparece uma homenagem à Hengameh Panahi. Ela foi uma produtora iraniana, estabelecida na França, que desempenhou um papel importante na produção, financiamento e venda de direitos internacionais para vários filmes de conteúdo político, como “Taxi Teerã” de Jafar Panahi, por exemplo. Ela faleceu em 2023 aos 67 anos. Fica aqui um agradecimento à Hengameh, pois é graças à pessoas assim que podemos assistir a essas maravilhas.