4.5.20

"Arábia" - Affonso Uchoa & João Dumans (Brasil, 2017)

Sinopse: Em Ouro Preto, Minas Gerais, um jovem (Murilo Caliari) encontra por acaso o diário de um operário metalúrgico que sofreu um acidente e por suas memórias embarca numa jornada pelas condições de vida de trabalhadores marginalizados.
Comentário: Affonso Uchoa (1984) é um cineasta brasileiro cuja filmografia inclui os curtas "Ou A Noite Incompleta" (2006) e "Desígnio" (2009) e os longas "Mulher à Tarde" (2011), "A Vizinhança do Tigre" (2014),  "Arábia" (2017); e "Sete Anos em Maio" (2019).
João Dumans (1984) também é brasileiro. Ele dirigiu os longas "As Linhas da Minha Mão" (2023) e "Arábia" (2017). "Arábia" (2017) é o primeiro filme que vejo deles.
Fabiane Secches da Revista Cult nos conta que "André é um adolescente que vive com a tia e com o irmão mais novo em uma área industrial da cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais. O irmão tem a saúde frágil e os dois parecem muito ligados. A tia trabalha como enfermeira na Vila Operária e, quando Cristiano, um dos trabalhadores da indústria metalúrgica local, é levado para o hospital, pede a André que vá até a casa do moço para apanhar algumas peças de roupa. Lá, o garoto encontra também um caderno, uma espécie de diário em que Cristiano escreveu sobre sua vida. Somente quando se apossa do caderno e começa a ler suas páginas é que o título do filme, 'Arábia', ocupa a tela e marca a transição do prelúdio para a história central, deslocando o protagonismo de André para Cristiano.
A partir desse momento, escutamos a voz de Cristiano em off, recurso utilizado pelo cinema à exaustão. Aqui, a narração ajuda a transmitir a atmosfera poética do filme. Não se sabe se o que vemos é a história tal como ocorreu ou como André a imagina conforme lê as páginas do caderno, mas a dúvida não nos persegue, somos rapidamente transportados. A cenografia e as atuações são bastante realistas, embora o filme não seja, sob diversos aspectos, exatamente verossímil.
Os diálogos ora impressionam pela naturalidade, ora parecem teatrais. Poucas vezes um personagem é interrompido em cena. Cristiano e seus interlocutores falam como se estivessem em uma peça ou sozinhos no palco, declamando. Ninguém emenda por cima do outro como em uma conversa espontânea. O artifício pode ter algumas interpretações: a primeira e mais óbvia é a referência à dramaturgia, já que mais tarde descobrimos que Cristiano se juntou ao grupo de teatro da fábrica e daí veio a ideia de escrever o caderno.
Outra interpretação possível é de que a estranheza dessas conversas sinalize a solidão dos personagens e marque a dificuldade de estreitar vínculos. Subjetivamente, Cristiano está à margem de si, como se não tivesse sido autorizado sequer a habitar o seu próprio corpo, conhecer os seus desejos. É possível que um homem que esteja sempre à sombra seja capaz de construir e sustentar laços de afeto?
Como alguém poderia, em condições tão adversas, deixar de ser objeto e passar a ser sujeito de sua própria história? Cristiano muitas vezes se parece com um fantasma ou com um bicho, migrando conforme a necessidade.
Mas, ainda que 'Arábia' seja um filme melancólico, um de seus acertos é não ser condescendente. Cristiano não é vitimizado, nem alçado ao posto de herói: é um homem comum, que foi marginalizado e que comete erros graves, mas que vê sua sensibilidade despertar conforme é tocado por experiências significativas, por encontros afetivos que o transformam, quer seja com os homens com quem faz amizade na prisão ou nos trabalhos por onde passa; quer seja com a mulher por quem se apaixona e com quem quase conhece o que é ter uma família.
A jornada de Cristiano tem qualquer coisa de mítica, de alegórica, sendo ele próprio um arquétipo. Obviamente a obra tem um viés ideológico, e se em alguns momentos esbarra no didatismo, em seguida faz a curva e escapa. Embora o enredo gire em torno do mundo do trabalho, não há salvamento possível por aí.
'Arábia' faz uma crítica ao discurso produtivista. Ao contrário da fábula, aqui temos uma apologia à cigarra. A música é um elemento essencial e rende algumas das passagens mais bonitas do filme. As canções escolhidas são metanarrativas que ajudam a reforçar o aspecto alegórico do enredo, como no caso de 'Três Apitos', de Noel Rosa, em linda interpretação de Maria Bethânia, que conta uma história de amor vivida por um operário. Outra das melhores cenas é aquela em que Cristiano canta com os amigos uma versão de 'Cowboy Fora da Lei', de Raul Seixas. Mais do que a dignificação pelo trabalho, é o violão que marca as passagens em que o protagonista é subjetivado, seja nas cantorias, seja no primeiro encontro com Ana, quando vencem um dos jogos de azar no parque de diversões e escolhem um violão em miniatura como presente. (...)
Affonso Uchôa e João Dumans, diretores e roteiristas do filme, parceiros de outro bom trabalho ('A Vizinhança do Tigre', 2016), conseguem retratar a beleza sincera da existência humana, com todos os seus contrastes. Ambos são de Contagem (cidade industrial próxima a Belo Horizonte), como Cristiano, e se colocam ao lado de seu protagonista. Como espectadores, temos a oportunidade de acompanhá-los nessa mesma posição".
O filme ganhou o principal prêmio no Festival de Brasília de 2017, além de Melhor Ator, Montagem e Trilha Sonora.
O que eu achei: O filme “Arábia” (2017) não tem nenhuma relação direta com o país Arábia Saudita nem com a cultura árabe em si. A situação no filme que mais se aproxima do país diz respeito a uma cena na qual um personagem conta uma piada dizendo que no deserto há areia à frente, atrás, de um lado e de outro. Fora isso, o título me parece, na verdade, metafórico, poético e simbólico. Há três camadas principais para entender o nome:
- "Arábia" como um lugar distante, imaginado, quase mítico, significando algo que está sempre fora de alcance. Uma espécie de “terra prometida”, um espaço de sonho, de fuga, de possibilidade, mas que nunca se concretiza. Para Cristiano (Aristides de Sousa), protagonista do longa, isso dialoga diretamente com sua condição: ele está sempre em movimento, sempre buscando algo melhor, mas nunca chega a um destino definitivo.
- "Arábia" como símbolo de deslocamento e errância, mostrando uma grande jornada errante pelo Brasil profundo: obras, estradas, fábricas, plantações, cidades pequenas. O título evoca esse sentimento de andar sem pertencer a lugar algum, de viver numa espécie de exílio permanente dentro do próprio país, passando a ser menos um ponto geográfico e mais um estado de espírito: o lugar do trabalhador que está sempre de passagem.
- Em diálogo com a tradição literária e poética onde a "Arábia” aparece como espaço de fantasia, aventura, miragem, ilusão ou destino inalcançável. É quase como se fosse um nome que carrega poesia e melancolia ao mesmo tempo, exatamente o tom do filme.
No fim das contas, "Arábia" é o nome de uma utopia que nunca chega, o lugar que sempre está adiante, na próxima estrada, no próximo trabalho, no próximo pôr do sol. E é isso que torna o título tão forte: ele condensa, em uma única palavra, todo o sentimento de deslocamento, melancolia e humanidade que atravessa o filme. Vale ver.