17.3.20

"HyperNormalisation" - Adam Curtis (Reino Unido, 2016)

Sinopse: Um retrato histórico, econômico e político da sociedade britânica. Por meio de estudos e entrevistas, Adam Curtis revela que, para ele, desde 1970 as autoridades do governo, financistas e ainda alguns tecnológicos constroem um mundo diferente do real na tentativa de explicar os eventos que acontecem na Inglaterra.
Comentário: O escritor russo Alexei Yurchak criou o termo hipernormalização para descrever uma espécie de "realidade inventada" que tomou conta do mundo nas últimas décadas. Trata-se, em outras palavras, da corrupção do real, do fato, da informação, do encadeamento histórico em benefício de uma mistura histérica e manipulativa entre realidade e ficção. Essa descrição se aplica diretamente ao que vivemos hoje no Brasil e no mundo, mas Yurchak cria o termo no contexto da União Soviética dos anos 1970/80, onde todos sabiam que a versão da realidade presente nas declarações de altos burocratas e mostrada pela mídia era completamente falsa. O documentário, que dura 2h45m, começa nesse período, quando os políticos tradicionais e a política que pensava ser possível mudar o mundo vão dando espaço progressivo à tecnocracia financeira e aos gerentes não-políticos. Pressionados por dívidas, os administradores públicos entregam o comando da nação aos bancos. Ali começa um descolamento, em que a comunicação vai deixando de ser algo ligado ao elencar de fatos que levam à mobilização pela mudança social e pelo bem comum, para se tornar uma farsa de inspiração hollywoodiana, com a função de distrair e deixar as pessoas confusas sobre o que é ficção e o que é realidade. Nosso atual presidente sabe muito bem o que é isso e usa desse artifício diariamente, contradizendo-se o tempo todo entre palavras e gestos e entre decisões e indecisões. O Brexit, a ameaça Trump, o voto contra a paz na Colombia, a complexidade da guerra na Síria e um governo de cleptocratas posto no poder para hipocritamente “limpar” o Brasil da corrupção – esses eventos imprevisíveis e caóticos provam que analistas e políticos hoje em dia são incapazes de prever cenários ou mesmo compreender o que acontece. O mundo estável e seguro, prometido a nós até ontem pelas nações onde vivemos, parece cada vez mais distante.