3.3.20

“Blue” - Apichatpong Weerasethakul (França/Tailândia, 2018)

Sinopse: Uma mulher (Jenjira Pongpas Widner) fica acordada à noite. Nas proximidades, há um conjunto de cortinas em forma de cenários de teatro que revela duas paisagens alternativas. No lençol azul da mulher, um lampejo de luz reflete e ilumina seu reino de insônia.
Comentário: Apichatpong Weerasethakul (1970) é um diretor tailandês que faz filmes pouco convencionais. Assisti dele os ótimos "Síndromes e Um Século" (2006) e "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas" (2010) e os bons "Hotel Mekong" (2012) e "Cemitério do Esplendor" (2015). Desta vez vou assistir "Blue" (2018), um curta com 12 minutos de duração.
Segundo Michael Sicinski do MUBI, "alguns dos melhores e mais sugestivos trabalhos de Apichatpong foram realizados de forma abreviada. Basta pensar no ‘The Anthem’ de 2006, no qual um jogo de badminton se torna um estudo complexo do processo de filmagem, ou no ‘Fantasmas de Nabua’ de 2009, que mostrava a imagem indelével de jovens soldados tailandeses jogando futebol com uma bola de futebol em chamas. 
Neste ‘Blue’, Apichatpong combina o dramático com o elementar, explorando mais uma vez a interseção entre arte e sonho.
Vemos Jenjira Pongpas Widner (estrela do ‘Tio Boonmee’ e ‘Cemitério do Esplendor’) dormindo em uma cama ao ar livre. Diretamente em frente a ela há um fundo teatral com vários cenários que mudam automaticamente: um caminho através da floresta e para as montanhas, uma estrada dourada que leva a um palácio tailandês e um pôr do sol sobre uma cena do oceano. 
Enquanto essas cenas continuam a mudar, vemos uma pequena faísca se acumulando na colcha sobre o torso de Pongpas Widner. Com o tempo, há uma chama substancial saindo de seu peito. 
Apichatpong não disfarça a encenação pela qual ele produz essa ilusão. Mas não é menos surpreendente por ser claramente articulado, falando ao poder imaginativo do trabalho onírico e ao grau em que estamos sujeitos a seus caprichos. ‘Blue’ é uma espécie de performance cinematográfica, com seu ator e seu cenário dividido por um grande vidro. Assim, Apichatpong está nos lembrando do dilúvio que se segue quando nossos sonhos trazem nossos desejos mais profundos à consciência. Primeiro o gás iluminador, depois a cachoeira".
O que eu achei: “Blue” (2018), curta-metragem com 12 minutos de duração, é uma obra minimalista e enigmática que mantém o tom onírico característico do diretor. Acompanhamos uma mulher que parece adormecer e despertar entre camadas de sonho e realidade, em meio a uma paisagem noturna iluminada por tons azulados e sons sutis da natureza. O curta funciona quase como um estudo visual e sensorial sobre o repouso e o inconsciente, mais próximo de uma instalação artística do que de uma narrativa tradicional. É um filme interessante, sobretudo para quem já aprecia o estilo contemplativo e poético de Apichatpong, ainda que, pela brevidade e abstração, pareça mais um fragmento de sua visão cinematográfica do que uma obra completa.