3.12.19

“Poesia sem Fim” - Alejandro Jodorowsky (França/Chile/Reino Unido, 2016)

Sinopse: Autobiografia do diretor Alejandro Jodorowsky (Jeremias Herskovits, Adán Jodorowsky e o próprio Alejandro Jodorowsky) que homenageia, através da sua história, a herança artística do Chile. Durante a juventude do artista chileno, ele se libertou de todas as suas amarras, como família e limitações, e foi introduzido no principal círculo artístico boêmio dos anos 1940 no Chile, onde conheceu promissoras pessoas do ramo que se tornariam reconhecidas no século XX.
Comentário: Alejandro Jodorowsky (1929) é um cineasta, ator, poeta, escritor (filmes e histórias em quadrinhos) e psicólogo ("psicomago" como se autodenomina) chileno-francês. Assisti dele o curioso "A Dança da Realidade" (2013). Desta vez vou conferir “Poesia sem Fim” (2016).
Trata-se da segunda parte da autobiografia de Jodorowsky, que começou com “A Dança da Realidade” (2013), focada na infância em Tocopilla (norte do Chile).
“Poesia sem fim” narra a adolescência e a juventude de Jodorowsky no bairro boêmio de Matucana, em Santiago, no final da década de 1940 e início de 1950.
No papel de Alejandro jovem está seu filho, Adán Jodorowsky, que além de ator é músico. Ele iniciou sua carreira como ator ainda criança, aparecendo no filme “Santa Sangre” (1989) dirigido por seu pai, quando tinha cerca de 8 anos de idade, e recebeu reconhecimento por essa atuação infantil. Desde então, Adán participou de outros filmes, incluindo “2 Days in Paris” (2007). Ele também compôs a trilha sonora de filmes como “A Dança da Realidade” (2013) e “Poesia sem Fim” (2016) sob seu nome artístico Adanowsky tendo lançado vários álbuns musicais ao longo de sua carreira.
O que eu achei: Em “Poesia sem Fim” (2016), Alejandro Jodorowsky dá continuidade ao projeto autobiográfico iniciado em “A Dança da Realidade” (2013), agora concentrando-se em sua juventude e no processo de descoberta da arte, da poesia e da própria identidade. Assim como o anterior, o filme abandona quase por completo qualquer pretensão de realismo para se assumir como um grande palco simbólico, onde memórias, desejos e fantasias coexistem sem hierarquia. A trajetória do jovem Alejandro no meio artístico chileno é apresentada como uma sucessão de encontros com figuras excêntricas, performances teatrais e gestos de ruptura. A cidade deixa de ser apenas cenário e se transforma em espaço performático, com cenários visivelmente artificiais, mudanças de figurino à vista e soluções que reforçam a ideia de que estamos diante de uma encenação consciente de si mesma. Jodorowsky não busca esconder os truques: pelo contrário, expõe-os, como se quisesse lembrar o tempo todo que memória e invenção caminham juntas. Esse excesso de teatralidade e simbolismo torna o filme, ao mesmo tempo, singular e difícil de assimilar. Há momentos de imaginação vibrante, imagens inventivas e sequências que celebram a liberdade criativa, mas também uma sensação de dispersão, como se o filme se organizasse mais por impulsos do que por um percurso dramático consistente. A sucessão de episódios nem sempre constrói um arco emocional claro, o que pode gerar uma relação mais contemplativa do que envolvente com a história. A relação conflituosa com o pai, retomada do filme anterior, reaparece aqui sob novas formas, assim como o desejo de romper com expectativas familiares e sociais. Esses temas, porém, surgem diluídos em meio a uma avalanche de símbolos, personagens caricaturais e situações extremadas, que parecem mais interessadas em expressar estados de espírito do que em desenvolver conflitos. “Poesia sem Fim” não se encaixa facilmente nas categorias de bom ou ruim. É um filme diferente, curioso, por vezes estimulante, por vezes cansativo, que aposta tudo na liberdade formal e na expressão subjetiva. Funciona mais como um manifesto artístico e emocional do que como um relato autobiográfico tradicional. Para quem observa com interesse o universo de Jodorowsky, a experiência é singular; para quem busca uma narrativa mais estruturada, o filme tende a permanecer como um exercício de estilo, fascinante em alguns momentos, mas irregular no conjunto.