Sinopse: A presença de uma milícia em uma rua de classe média na zona sul do Recife muda a vida dos moradores do local. Ao mesmo tempo em que alguns comemoram a tranquilidade trazida pela segurança privada, outros passam por momentos de extrema tensão. Ao mesmo tempo, casada e mãe de duas crianças, Bia (Maeve Jinkings) tenta encontrar um modo de lidar com o barulhento cachorro de seu vizinho.
Comentário: Kleber Mendonça Filho (1968) é um diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro. Já assisti dele o ótimo "Aquarius" (2016). Desta vez vou conferir “O Som ao Redor” (2012).
Trata-se de um filme brasileiro cujo roteiro é original, não sendo baseado em livro ou obra pré-existente. O projeto foi desenvolvido a partir do interesse do diretor em observar as dinâmicas de convivência e conflito em bairros de classe média do Recife, especialmente em ruas marcadas por edifícios residenciais, sistemas de segurança privada e forte segregação social.
A narrativa acompanha diferentes personagens que vivem ou trabalham em um mesmo quarteirão, entre eles moradores, corretores, empregados domésticos e um grupo de vigilantes que passa a oferecer serviços de segurança para a região. Em vez de uma trama linear centrada em um protagonista, o filme adota uma estrutura coral, alternando entre núcleos e situações que se cruzam de forma indireta ao longo da história.
O filme foi rodado integralmente no Recife, com locações em bairros residenciais que refletem o processo de verticalização urbana e a substituição de casas por prédios, fenômeno recorrente na cidade nas décadas recentes. Muitos dos figurantes e parte do elenco são moradores locais, o que contribui para a ambientação social proposta pelo diretor.
“O Som ao Redor” marca a estreia de Kleber Mendonça Filho no longa-metragem de ficção, após uma trajetória como crítico de cinema e diretor de curtas e documentários. O filme dialoga com temas que seriam retomados em obras posteriores do diretor, como a relação entre espaço urbano, memória, desigualdade social e formas contemporâneas de controle e vigilância.
O longa teve estreia internacional no Festival de Rotterdam e circulou por diversos festivais ao redor do mundo, obtendo distribuição comercial em vários países. No Brasil, seu lançamento contribuiu para ampliar a visibilidade do cinema pernambucano no cenário nacional e internacional da década de 2010.
Do ponto de vista formal, o filme faz uso expressivo do desenho de som, de longos planos de observação e de cortes que conectam ações simultâneas em diferentes apartamentos e áreas comuns do quarteirão. Esses recursos são empregados para articular a coexistência de rotinas privadas e tensões coletivas dentro de um mesmo espaço urbano.
O que eu achei: Em “O Som ao Redor”, Kleber Mendonça Filho constrói um retrato minucioso de uma classe média urbana cercada por muros, grades e desconfianças, onde a sensação de ameaça é constante, ainda que muitas vezes difusa. O filme parte de situações corriqueiras de um quarteirão de Recife para revelar tensões históricas e sociais que seguem operando sob a superfície do cotidiano. A narrativa fragmentada, acompanhando diferentes personagens e pequenos conflitos domésticos, cria um mosaico que vai ganhando densidade à medida que os episódios se acumulam. Não há um protagonista único, mas um conjunto de figuras que, juntas, compõem um retrato coletivo: moradores, seguranças privados, empregados, jovens entediados, todos atravessados por relações de poder nem sempre explícitas. Essa estrutura reforça a ideia de que o mal-estar não pertence a um indivíduo, mas ao próprio tecido social. Um dos aspectos mais marcantes do filme é o uso do som como elemento dramático. Ruídos de cachorros, portões, televisões e passos fora de quadro funcionam como sinais permanentes de intrusão e vigilância, criando uma atmosfera de suspense que se infiltra em cenas aparentemente banais. O desenho sonoro transforma o espaço urbano em território instável, onde o conforto material convive com um medo persistente e mal resolvido. Kleber também articula, de forma gradual, a presença do passado como força determinante do presente. A herança de relações patriarcais e de exploração se insinua nos gestos, nas hierarquias e nos ressentimentos, sugerindo que a violência estrutural apenas mudou de forma, sem desaparecer. Quando o filme se aproxima de um desfecho mais direto, ele não abandona sua ambiguidade, preferindo manter o incômodo como parte essencial da experiência. “O Som ao Redor” se destaca pela precisão do olhar e pela recusa a explicações fáceis. Ao transformar um quarteirão em microcosmo do país, o filme propõe uma reflexão incisiva sobre segurança, propriedade e convivência, sempre ancorada em observações concretas do cotidiano. É um cinema atento aos detalhes, às tensões invisíveis e aos ruídos que denunciam aquilo que insistimos em não escutar.
Trata-se de um filme brasileiro cujo roteiro é original, não sendo baseado em livro ou obra pré-existente. O projeto foi desenvolvido a partir do interesse do diretor em observar as dinâmicas de convivência e conflito em bairros de classe média do Recife, especialmente em ruas marcadas por edifícios residenciais, sistemas de segurança privada e forte segregação social.
A narrativa acompanha diferentes personagens que vivem ou trabalham em um mesmo quarteirão, entre eles moradores, corretores, empregados domésticos e um grupo de vigilantes que passa a oferecer serviços de segurança para a região. Em vez de uma trama linear centrada em um protagonista, o filme adota uma estrutura coral, alternando entre núcleos e situações que se cruzam de forma indireta ao longo da história.
O filme foi rodado integralmente no Recife, com locações em bairros residenciais que refletem o processo de verticalização urbana e a substituição de casas por prédios, fenômeno recorrente na cidade nas décadas recentes. Muitos dos figurantes e parte do elenco são moradores locais, o que contribui para a ambientação social proposta pelo diretor.
“O Som ao Redor” marca a estreia de Kleber Mendonça Filho no longa-metragem de ficção, após uma trajetória como crítico de cinema e diretor de curtas e documentários. O filme dialoga com temas que seriam retomados em obras posteriores do diretor, como a relação entre espaço urbano, memória, desigualdade social e formas contemporâneas de controle e vigilância.
O longa teve estreia internacional no Festival de Rotterdam e circulou por diversos festivais ao redor do mundo, obtendo distribuição comercial em vários países. No Brasil, seu lançamento contribuiu para ampliar a visibilidade do cinema pernambucano no cenário nacional e internacional da década de 2010.
Do ponto de vista formal, o filme faz uso expressivo do desenho de som, de longos planos de observação e de cortes que conectam ações simultâneas em diferentes apartamentos e áreas comuns do quarteirão. Esses recursos são empregados para articular a coexistência de rotinas privadas e tensões coletivas dentro de um mesmo espaço urbano.
O que eu achei: Em “O Som ao Redor”, Kleber Mendonça Filho constrói um retrato minucioso de uma classe média urbana cercada por muros, grades e desconfianças, onde a sensação de ameaça é constante, ainda que muitas vezes difusa. O filme parte de situações corriqueiras de um quarteirão de Recife para revelar tensões históricas e sociais que seguem operando sob a superfície do cotidiano. A narrativa fragmentada, acompanhando diferentes personagens e pequenos conflitos domésticos, cria um mosaico que vai ganhando densidade à medida que os episódios se acumulam. Não há um protagonista único, mas um conjunto de figuras que, juntas, compõem um retrato coletivo: moradores, seguranças privados, empregados, jovens entediados, todos atravessados por relações de poder nem sempre explícitas. Essa estrutura reforça a ideia de que o mal-estar não pertence a um indivíduo, mas ao próprio tecido social. Um dos aspectos mais marcantes do filme é o uso do som como elemento dramático. Ruídos de cachorros, portões, televisões e passos fora de quadro funcionam como sinais permanentes de intrusão e vigilância, criando uma atmosfera de suspense que se infiltra em cenas aparentemente banais. O desenho sonoro transforma o espaço urbano em território instável, onde o conforto material convive com um medo persistente e mal resolvido. Kleber também articula, de forma gradual, a presença do passado como força determinante do presente. A herança de relações patriarcais e de exploração se insinua nos gestos, nas hierarquias e nos ressentimentos, sugerindo que a violência estrutural apenas mudou de forma, sem desaparecer. Quando o filme se aproxima de um desfecho mais direto, ele não abandona sua ambiguidade, preferindo manter o incômodo como parte essencial da experiência. “O Som ao Redor” se destaca pela precisão do olhar e pela recusa a explicações fáceis. Ao transformar um quarteirão em microcosmo do país, o filme propõe uma reflexão incisiva sobre segurança, propriedade e convivência, sempre ancorada em observações concretas do cotidiano. É um cinema atento aos detalhes, às tensões invisíveis e aos ruídos que denunciam aquilo que insistimos em não escutar.
