Sinopse: Lazzaro (Adriano Tardiolo) é um garoto pobre e pouco inteligente, mas extremamente bondoso. Ele é explorado e faz trabalhos forçados diariamente colaborando com a marquesa (Nicoletta Braschi), proprietária das terras onde vive com sua vó (Lucia Centoscudi) e agregados. No entanto, após uma tragédia, Lazzaro some de cena e, muitos anos depois, reaparece sem envelhecer. Ele não compreende mais a lógica deste mundo, mas pretende reencontrar a sua gente e voltar a viver como antigamente.
Comentário: Alice Rohrwacher (1981) é uma roteirista, editora de cinema e diretora italiana. “Lazzaro Felice” (2018) é o primeiro filme que vejo dela.
Luiz Oliveira do site Metrópoles publicou: "O cinema é cheio de protagonistas que, sem intenção ou propriedade, e com fortes indícios de deficit cognitivo, formam a narrativa e a História humana para o bem. O caso mais famoso seria Forrest Gump, no filme homônimo, ou Chance, de “Muito Além do Jardim”. A diretora italiana Alice Rohrwacher, em seu novo filme, usa este tipo de personagem não para resolver a vida dos outros com sua simplicidade bondosa, mas sim para sofrer as agruras que ele não consegue compreender e processar.
Lazzaro (Adriano Tardiolo) é um lavrador jovem e ingênuo que mora no pequeno vilarejo Inviolata, e trabalha com a família locadora do terreno no plantio e colheita de tabaco. A família, por sua vez, é vigorosamente explorada pela dona da terra, a Marquesa Alfonsina de Luna (Nicoletta Braschi). O cenário pastoral, lindo e antiquado, remete ao começo do século, porém um detalhe ou outro, como o uso da eletricidade e o uso de um walkman e, eventualmente, de um celular indicam que algo está errado na temporalidade do conto.
O que acontece é que a Marquesa está (obviamente) explorando seus lavradores, desconectando-os do mundo nos anos 90 e fazendo com que pensem ainda serem parte de um feudo econômico. Os lavradores, num reflexo da mesma moeda, reconhecem que tem uma existência miserável, e exorcizam o fardo de outras formas. A maneira mais pertinente recai sobre Lazzaro, que nunca declina uma tarefa pedida para ele, mesmo que não receba benefício algum, e é motivo de piada para todos os moradores do vilarejo de nome irônico.
Um dia, o simples camponês se envolve em uma trama criminosa, claro que sem saber, e apenas na intenção de ajudar os outros. Para ele, o resultado é o pior possível, e na primeira indicação que o filme não se passa em nossa realidade, mas em algo mágico. Lazzaro, sem perceber a passagem do tempo, se encontra na Itália moderna, 30 anos após seus dias na lavoura, sem ter envelhecido um dia.
A segunda metade do filme traz seu real propósito: comparar uma inocência pastoral de um país milenar com o que a modernidade, que a destruiu, espalhou na sociedade. Lazzaro reencontra a família, as crianças agora envelhecidas, e, obviamente, se envolve em novas estripulias com eles que, desempregados, tem de se virar com pequenos golpes e estelionatos para sobreviverem".
Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes
Luiz Oliveira do site Metrópoles publicou: "O cinema é cheio de protagonistas que, sem intenção ou propriedade, e com fortes indícios de deficit cognitivo, formam a narrativa e a História humana para o bem. O caso mais famoso seria Forrest Gump, no filme homônimo, ou Chance, de “Muito Além do Jardim”. A diretora italiana Alice Rohrwacher, em seu novo filme, usa este tipo de personagem não para resolver a vida dos outros com sua simplicidade bondosa, mas sim para sofrer as agruras que ele não consegue compreender e processar.
Lazzaro (Adriano Tardiolo) é um lavrador jovem e ingênuo que mora no pequeno vilarejo Inviolata, e trabalha com a família locadora do terreno no plantio e colheita de tabaco. A família, por sua vez, é vigorosamente explorada pela dona da terra, a Marquesa Alfonsina de Luna (Nicoletta Braschi). O cenário pastoral, lindo e antiquado, remete ao começo do século, porém um detalhe ou outro, como o uso da eletricidade e o uso de um walkman e, eventualmente, de um celular indicam que algo está errado na temporalidade do conto.
O que acontece é que a Marquesa está (obviamente) explorando seus lavradores, desconectando-os do mundo nos anos 90 e fazendo com que pensem ainda serem parte de um feudo econômico. Os lavradores, num reflexo da mesma moeda, reconhecem que tem uma existência miserável, e exorcizam o fardo de outras formas. A maneira mais pertinente recai sobre Lazzaro, que nunca declina uma tarefa pedida para ele, mesmo que não receba benefício algum, e é motivo de piada para todos os moradores do vilarejo de nome irônico.
Um dia, o simples camponês se envolve em uma trama criminosa, claro que sem saber, e apenas na intenção de ajudar os outros. Para ele, o resultado é o pior possível, e na primeira indicação que o filme não se passa em nossa realidade, mas em algo mágico. Lazzaro, sem perceber a passagem do tempo, se encontra na Itália moderna, 30 anos após seus dias na lavoura, sem ter envelhecido um dia.
A segunda metade do filme traz seu real propósito: comparar uma inocência pastoral de um país milenar com o que a modernidade, que a destruiu, espalhou na sociedade. Lazzaro reencontra a família, as crianças agora envelhecidas, e, obviamente, se envolve em novas estripulias com eles que, desempregados, tem de se virar com pequenos golpes e estelionatos para sobreviverem".
Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes
O que eu achei: O filme possui uma narrativa que se apresenta como fábula social, mas se recusa a oferecer o conforto moral típico do gênero. Lazzaro é a pureza em pessoa. O subserviente dos subservientes. No filme, uma espécie de alegoria que dialoga com o imaginário bíblico, ele será ora escravo, ora mendigo, evidenciando que, neste mundo, a bondade dificilmente encontra lugar. A primeira metade, ambientada num espaço rural quase fora do tempo, expõe com crueza uma lógica de exploração herdada de estruturas feudais. Rohrwacher filma esse universo com delicadeza e estranhamento, como se o real estivesse sempre prestes a se converter em mito. A virada narrativa, abrupta e deliberadamente desconcertante, desloca a história para outro regime de tempo e espaço, reforçando a ideia de que a opressão muda de forma, mas não desaparece. O protagonista, interpretado com notável economia de gestos, é menos um personagem psicológico do que um princípio ético em movimento. Sua incapacidade de compreender as regras do mundo moderno não é ingenuidade simples, mas um espelho incômodo: o filme parece perguntar se a sociedade contemporânea ainda reconhece, ou sequer tolera, a bondade desinteressada. Nesse sentido, a obra ganha força simbólica, ainda que por vezes sacrifique a densidade dramática em favor da alegoria. Visualmente, "Lazzaro Felice" (2018) é coerente com sua proposta: a fotografia aposta em texturas naturais e numa composição que oscila entre o realismo e o encantamento. No entanto, essa mesma opção pode afastar parte do público, sobretudo quando o ritmo se torna contemplativo demais e certas ideias são reiteradas sem grandes variações. Sem ser um filme plenamente arrebatador, tampouco decepcionante, "Lazzaro Felice" se sustenta como uma experiência singular: um cinema de sensibilidade política e poética, que observa com melancolia, e alguma ironia, um mundo em que a inocência parece sempre deslocada.
