6.10.19

“Poderia Me Perdoar?” - Marielle Heller (EUA, 2018)

Sinopse: Passando por problemas financeiros, a jornalista Lee Israel (Melissa McCarthy) decide forjar e vender cartas de personalidades já falecidas, um negócio criminoso que dá muito certo. Quando as primeiras suspeitas começam, para não parar de lucrar ela modifica o esquema e passa a roubar os textos originais de arquivos e bibliotecas.
Comentário: Marielle Heller (1979) é uma diretora, roteirista e atriz americana. Ela dirigiu longas como "O Diário de Uma Adolescente" (2015) e " Um Lindo Dia na Vizinhança" (2019) e trabalhou como atriz na minissérie "O Gambito da Rainha" (2020). "Poderia Me Perdoar?" (2018) é o primeiro filme que vejo dela.
Trata-se da história real de uma escritora que ganha a vida pesquisando e escrevendo biografias de pessoas famosas, e que, um dia, vê o público e sua própria agente - Marjorie (Jane Curtin) - perdendo o interesse por esse gênero literário. Com a necessidade financeira batendo à sua porta lhe ocorre a ideia de vender um bilhete escrito à ela por Katharine Hepburn. Com a descoberta desse mercado ela passa a falsificar bilhetes e assinaturas de famosos para vender e envereda por criar pequenas histórias que rendem altos valores. O filme é baseado no livro, escrito pela própria falsária, contando como tudo ocorreu.
Concorreu ao Oscar de Melhor Atriz (Melissa McCarthy), Melhor Ator Coadjuvante (Richard E. Grant) e Melhor Roteiro Adaptado.
O que eu achei: “Poderia Me Perdoar?” (2018) é um filme delicado e preciso sobre solidão, fracasso e pequenas fraudes que acabam revelando verdades mais profundas. Dirigido por Marielle Heller, o longa equilibra drama e humor com uma sensibilidade rara, transformando uma história real de crime literário em um retrato humano e comovente. Melissa McCarthy surpreende como Lee Israel, uma escritora de biografias em decadência que, após ser rejeitada pelo mercado editorial, passa a falsificar cartas de autores e celebridades falecidas. A atriz abandona completamente o tom cômico que a consagrou e entrega uma performance contida, amarga e profundamente humana, talvez a melhor de sua carreira. Ao seu lado, Richard E. Grant cria um contraponto perfeito como Jack Hock, parceiro de bebedeiras e golpes, compondo uma amizade disfuncional e melancólica que se torna o coração do filme. Marielle Heller não recorre a sentimentalismos. O ritmo é calmo, a fotografia é sombria e o tom lembra o cinema independente dos anos 1970, o que combina com o clima de isolamento e desencanto de sua protagonista. O roteiro, baseado nas memórias da própria Lee Israel, consegue alternar momentos de ironia mordaz com passagens de autocrítica e ternura inesperada, tornando a personagem ao mesmo tempo detestável e profundamente empática. “Poderia Me Perdoar?” é, acima de tudo, um filme sobre alguém que queria ser lida e encontrou, da forma mais torta possível, um jeito de ser ouvida. Com atuações excepcionais e uma direção que privilegia o silêncio, a observação e a ambiguidade moral, resulta num belo retrato de personagens à margem, feito com empatia e inteligência.