Sinopse: Aggeliki (Chloe Bolota) no seu aniversário de 11 anos se joga da varanda de casa com um sorriso no rosto. Sua família alega que não foi suicídio, mas sim um acidente e parece conformada com a morte da menina tentando, de todas as formas, continuar com suas vidas perfeitamente organizadas. Em busca de respostas, promotores começam uma investigação para saber se foi ou não suicídio e quais são os segredos obscuros que essa família, aparentemente perfeita, guarda.
Comentário: Alexandros Avranas (1977) é um cineasta e roteirista grego. "Miss Violence" (2012) é o primeiro filme que vejo dele.
Premiado no Festival de Veneza, a produção grega "Miss Violence" conta a história de uma família pouco convencional: um avô e uma avó moram com suas filhas e netas em um pequeno apartamento. No dia em que se comemorava o aniversário de 11 anos da pequena Aggeliki, a família é surpreendida pelo suicídio da garota, que se joga pela janela.
O diretor afirmou que a ideia do filme foi inspirada em um caso real que ouviu enquanto vivia em Berlim, envolvendo uma tragédia familiar pertubadora que aconteceu na vida real na Alemanha, mas ele transformou bastante essa história para os fins do filme.O que eu achei: “Miss Violence” (2012) é um daqueles filmes que não pedem permissão ao espectador: ele invade, desconcerta e permanece ecoando muito depois dos créditos finais. Polêmico e profundamente perturbador, o longa se impõe como uma experiência incômoda e justamente por isso, poderosa. Desde a cena inicial, Avranas constrói uma atmosfera de estranhamento absoluto. A narrativa é fria, quase clínica, recusando explicações fáceis ou alívios emocionais. O diretor opta por uma mise-en-scène rigorosa, marcada por enquadramentos estáticos, espaços domésticos sufocantes e uma economia extrema de trilha sonora. Tudo conspira para criar um sentimento constante de opressão, como se algo terrível estivesse sempre prestes a emergir e, quando emerge, o faz sem catarse ou espetacularização. A grande força de Miss Violence está em sua recusa em suavizar o horror. O filme aborda temas extremamente delicados - abuso, violência estrutural, silêncio cúmplice e autoritarismo familiar - sem recorrer a sentimentalismo ou julgamentos explícitos. Ao invés disso, Avranas coloca o espectador na posição desconfortável de observador impotente, forçado a encarar a banalização do mal dentro do espaço que, teoricamente, deveria ser o mais seguro: a família. As atuações são notáveis, especialmente a do patriarca, cuja presença em cena é marcada por um controle rígido, quase burocrático, da violência. Não há gritos excessivos nem explosões dramáticas: o terror se manifesta na normalização do absurdo, nos gestos cotidianos e na obediência automática. Essa escolha torna o filme ainda mais perturbador, pois revela como a violência pode se esconder sob a aparência da ordem, da tradição e da “normalidade”. Inserido no contexto do chamado 'novo cinema grego', "Miss Violence" dialoga com uma sociedade em crise - moral, econômica e simbólica -, mas sem se limitar a uma leitura local. O que o filme expõe é universal: as engrenagens do poder, do controle e do silenciamento, especialmente quando legitimadas por estruturas familiares e sociais. Gostar de "Miss Violence" não significa sair ileso ou confortável da experiência. Pelo contrário: é reconhecer o valor de um cinema que provoca, fere e obriga a pensar. Trata-se de um filme duro, radical e corajoso, que não busca agradar, mas sim confrontar. E é justamente nessa postura ética e estética intransigente que reside sua grandeza.
