2.11.14

"Amar, Beber e Cantar" - Alain Resnais (França, 2014)

Sinopse: Um grupo de teatro amador está ensaiando uma nova peça, quando uma notícia triste abala a todos: George, amigo próximo da trupe, está doente. De acordo com os médicos, ele tem no máximo seis meses de vida. Enquanto as mulheres do grupo começam a relembrar a antiga paixão pelo mulherengo George, os homens têm uma ideia inusitada: e se o amigo doente fosse chamado para interpretar um dos personagens da peça?
Comentário: Alain Resnais (1922-2014) foi um realizador, roteirista e montador francês. Ele dirigiu diversos filmes ao longo da vida, dentre eles "Hiroshima Meu Amor" (1959), "O Ano Passado em Marienbad" (1961), "Meu Tio da América" (1980) e "Medos Privados em Lugares Públicos" (2007), dentre outros. "Amar, Beber e Cantar" (2014) é o primeiro filme que vejo dele.
Trata-se do último filme de Alain Resnais que o fez aos 91 anos. O filme ganhou o Prêmio da Crítica como Melhor Filme no Festival de Berlim e, duas semanas depois ele faleceu. O filme acabou ficando com uma aura de premonitório já que Resnais, que nunca escreveu um roteiro na vida, resolveu escrever justamente esse que trata da morte de um ator de uma trupe de teatro.
O que eu achei: Com "Amar, Beber e Cantar" (2014), Alain Resnais se despede do cinema com um filme leve na superfície, mas cheio de inteligência e delicadeza por baixo do humor. Baseado numa peça de Alan Ayckbourn, o longa gira em torno da iminente morte de um personagem que nunca aparece em cena, servindo como eixo para encontros, desencontros amorosos e pequenas crises afetivas. O tom é de comédia sofisticada, marcada por diálogos espirituosos e uma encenação assumidamente artificial, que abraça o teatro sem tentar disfarçá-lo. Mesmo para quem está tendo - assim como eu - um primeiro contato com o cinema de Resnais, o filme se sustenta pelo prazer do jogo formal e pelo olhar generoso sobre seus personagens. Os cenários pintados, os figurinos quase caricatos e as transições estilizadas criam uma atmosfera lúdica, que contrasta com o tema da finitude. Há algo de profundamente sereno na forma como o diretor trata o tempo, o envelhecimento e os afetos, sempre sem peso excessivo ou sentimentalismo fácil. Como último filme de sua carreira, "Amar, Beber e Cantar" soa menos como um adeus solene e mais como um sorriso cúmplice ao espectador. É um filme que não busca grandiosidade, mas sim elegância e prazer narrativo, deixando a sensação de ter acompanhado um cineasta em pleno domínio de sua linguagem até o fim. Bom, justamente por saber exatamente o que quer ser e por aceitar a morte como parte natural da comédia da vida.