Sinopse: 1943. O professor Hyakken Uchida (Tatsuo Matsumura) resolve deixar de lecionar para poder se dedicar ao ofício de escritor. O professor é uma lenda vida entre alunos e ex-alunos, pelo seu espírito brincalhão e alegre, e constantemente recebe visitas de seus antigos pupilos. Ele e sua esposa (Kyôko Kogawa) alugam uma bela casa, mas logo ela é destruída em virtude dos ataques aéreos que o Japão sofre na Segunda Guerra Mundial. A partir de então eles se mudam para um barraco, onde vivia o jardineiro de uma mansão próxima. É quando seus ex-alunos, decididos a impedir que o professor continue com uma vida de miséria, decidem se unir para bancar a construção de uma nova casa para ele. Além disto passam a comemorar anualmente o aniversário do professor, reunindo amigos dele e ex-alunos para uma grande confraternização.
Comentário: Akira Kurosawa (1910-1998) foi um dos cineastas mais importantes do Japão e seus filmes influenciam até hoje uma grande geração de diretores. Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu em torno de 30 filmes. Assisti dele "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961) e "Sonhos" (1990). Desta vez vou conferir "Madadayo" (1993).
O filme é baseado em ensaios do escritor e professor japonês Hyakken Uchida (1889-1971), retratado no filme.
Segundo Eduardo Valente do site Contracampo, "é impressionante voltar os olhos para os três últimos filmes de Akira Kurosawa sob o signo desta palavra: 'últimos'. Porque, olhados em retrospecto, após o falecimento do cineasta em 1998, impressiona ver como os temas da velhice e da morte perpassam estes três trabalhos ('Sonhos', 1990; 'Rapsódia em Agôsto', 1991 e 'Madadayo', 1993) têm a força de um autêntico epitáfio artístico escrito em vida. Não se tratam, no entanto, de filmes de tons escuros sobre a vida a partir da morte, de forma alguma (mesmo vindo de um cineasta que no início dos anos 70 chegou a tentar o suicídio).
Quase o oposto disso: em todos os três há um personagem idoso que reafirma constantemente seu apego à vida e à beleza dos pequenos rituais cotidianos, para além da sabedoria sobre a proximidade do fim. 'Madadayo' é mais obviamente sobre isso, como seu título mesmo já indica: trata-se de uma expressão que significa 'ainda não!', resposta que o protagonista do filme (um professor que se aposenta nos primeiros planos do filme) dá para os convidados de suas festas de aniversário todos os anos, quando repetem a pergunta (num pequeno jogo ritualístico) se ele já estaria pronto para partir.
'Madadayo' pode ser lido como um libelo pelo apego à vida mesmo nos seus momentos finais, o que não pode ser tema mais próprio ao último filme de um cineasta idoso. Comparar a figura do professor, constantemente cercado por seus alunos que o idolatram, com a persona de Kurosawa, chega a ser quase banal de tão óbvio - mas não menos adequado por isso".
O que eu achei: Último filme de Akira Kurosawa, "Madadayo" (1993) funciona quase como um testamento artístico e humano de um dos maiores cineastas da história. Inspirado na vida do escritor e professor Hyakken Uchida, a obra acompanha o mestre aposentado que, ano após ano, é celebrado por seus ex-alunos em encontros cheios de reverência, afeto e humor, enquanto o tempo avança e a velhice se aproxima. Kurosawa filma tudo com uma serenidade e uma delicadeza comoventes. Longe dos épicos grandiosos ou dos dramas intensos que marcaram sua carreira, aqui o diretor escolhe a simplicidade: planos longos, ritmo contemplativo, humor sutil e uma atmosfera de aceitação diante da passagem do tempo. O filme traz uma beleza serena, sem pressa de chegar a conclusões, convidando o espectador a sentir o peso e a leveza do tempo ao lado do protagonista. Ao final, "Madadayo" se revela uma despedida afetuosa, tanto do personagem quanto do próprio Kurosawa, que, aos 83 anos, parecia falar conosco sobre o ciclo da vida com um sorriso melancólico e cheio de sabedoria.
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