22.7.13

"O Pântano" - Lucrecia Martel (Argentina/Espanha, 2001)

Sinopse: O filme mostra a tensão que acontece enquanto duas famílias resolvem passar as férias em suas casas de verão. Em uma casa temos Mecha (Graciela Borges), uma mulher de 50 e poucos anos que tem de aguentar sua família, formada por um marido que tinge os cabelos, crianças irritantes e empregados que roubam suas coisas. Eles estão em uma casa com piscina na cidade de La Cienaga, onde a tensão familiar pode chegar a níveis estratosféricos no calor do verão. Na outra casa está sua prima Tali (Mercedes Morán), que também tem um bando de filhos barulhentos e um marido.
Comentário: Trata-se do filme número 93 da lista dos 100 Essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz “Da elogiadíssima nova safra do cinema argentino, a diretora e roteirista Lucrecia Martel é talvez o principal destaque individual, aquele que mais tem se preocupado em criar um universo ficcional próprio e original. Em seus dois longas, 'O Pântano' e 'A Menina Santa' (2004), ambos passados no norte da Argentina (região onde nasceu), há semelhanças no trato da dissolução dos relacionamentos familiares, na influência da culpa católica e também em ambientações particulares, como a presença de piscinas. 'O Pântano', o mais cultuado dos dois, conta a história de duas matriarcas e suas famílias desajustadas que passam alguns dias na úmida cidade de La Ciénaga (título original da obra). Mecha (Graciela Borges) observa, literalmente inerte, quase sem se levantar da cama, o marido se afundar no álcool e a relação incestuosa entre os filhos. Já Tali (Mercedes Morán) tenta se dedicar o máximo à família, e ainda assim, não consegue impedir um acidente doméstico com o filho. Os personagens estão acomodados no sofrimento, algo que Lucrecia Martel afirma perceber no povo argentino. A cineasta não se preocupa em ser agradável. O ambiente é claustrofóbico: latidos, zunidos, copos se quebrando, em um estado permanente de ebriedade - seja química, seja moral. E, apesar da decadência das relações, há um forte vínculo físico, com os personagens sempre se tocando. 'O Pântano' ganhou o prêmio Alfred Bauer, dedicado a diretores estreantes, no Festival de Berlim de 2001.
O que disse a crítica: Segundo Alcino Leite Neto do Folha Online, "o jornal Le Monde abriu quase uma página ao filme argentino, asseverando: 'La Ciénaga' anuncia a nova onda argentina'. O Libération deu chamada de capa e afirmou: 'Os fantasmas de Faulkner não estão longe'. Os Cahiers du Cinéma dedicaram três páginas a 'esse primeiro belo filme', nas palavras da revista, e mais duas ao ressurgimento do cinema argentino. Les Inrockptibles, a principal publicação semanal de cultura, qualificou 'La Ciénaga' de excelente. A diretora Lucrecia Martel, 35, foi entrevistada por toda a imprensa e está em Paris junto de outros cinco diretores argentinos, que receberam uma bolsa do governo francês para o desenvolvimento de roteiros. A França, que foi a principal porta de entrada para o mundo do cinema novo brasileiro nos anos 60, dos filmes portugueses nos anos 80 e dos iranianos nos anos 90, entre vários outros cinemas nacionais, agora parece dedicar sua atenção à produção da Argentina".
O que eu achei: Com uma câmera móvel e próxima, tão arraigada quanto um membro da família, Lucrecia Martel lança um olhar mordaz sobre suas expressões de gênero, raça e classe, revelando um universo que nunca imaginamos e nos faz olhar de forma diferente para a sociedade e o meio que subestimamos, retratando a atmosfera hiper-realista e perturbadora de uma família às vezes normal, potencialmente violenta e, na maioria das vezes, doente. Vale ver.