Sinopse: Cinebiografia de Napoleão (Vladimir Roudenko e Albert Dieudonné) desde a infância até a invasão da Itália pelo exército francês em 1797.
Comentário: Abel Gance (1989-1981) foi um cineasta, produtor, editor, escritor e ator francês. Gance era filho ilegítimo. Seus pais queriam que ele se tornasse um advogado, mas desde a infância Gance foi atraído pelo teatro. Ele fez sua primeira apresentação como ator em Bruxelas com a idade de 19 anos e atuou em seu primeiro filme em 1909 em "Molière". Ele continuou atuando e escrevendo roteiros antes de formar a sua própria companhia de produção em 1911. Seu primeiro filme chamava-se "La Digue" (1911), mas foi um fracasso. Sua nova produção, a peça teatral "Victoire de Samothrace" foi um projeto que não pôde ser filmado devido à Primeira Guerra Mundial. Devido à sua frágil saúde, Gance conseguiu não participar da maior parte da guerra e ele retornou a fazer filmes, agora com mais sucesso. Em 1919, ele obteve o reconhecimento internacional com seu filme épico de três horas "J’Accuse" (1919) , um filme contra a guerra que incluiu cenas de batalhas ao longo do fim da Primeira Guerra. Constam de sua filmografia em torno de 51 filmes. "Napoleão" (1927) é o primeiro filme que vejo dele.
Segundo o site Prós e Contras, "é importante notar que o tipo de épico representado por 'Napoleão' está muito atrelado ao período entre a primeira e a segunda guerras mundiais. (...) Existe uma clara preocupação nessas obras em mitificar as figuras históricas retratadas. Elas representam a inspiração que os cidadãos comuns deveriam ter em servir sua pátria, a bravura e honra diante dos inimigos. Tudo isso, é claro, está atrelado aos sentimentos negativos remanescentes da terrível primeira guerra mundial, e ao medo crescente da crise econômica e da ocorrência de uma nova guerra. (...)
O que diferencia 'Napoleão' de qualquer dos demais filmes de sua categoria é a visão de cinema de Abel Gance. O diretor francês era extremamente ambicioso, e se isso não fica óbvio pela escolha do tema de seu filme, a duração talvez deixe mais claro: "Napoleão" tem cerca de quatro horas de duração. Na verdade, o plano inicial de Gance era montar cerca de dez horas de filme, retratando a vida toda de Napoleão, intenção que acabou frustrada.
Assim sendo, não por concepção inicial, mas por desenvolvimento natural da criação cinematográfica, "Napoleão" passou a ser um filme que se concentra na criação de uma lenda, no trecho em que seu personagem principal menos sofre com o escrutínio da história, e pode, dessa forma, ser retratado como um ser humano destinado à glória e portador de uma mente única, e de um desejo inquebrantável de defender sua pátria.
Os pontos mais questionáveis da trajetória de Bonaparte são deixados de lado. As seis horas a menos do que Gance pretendia criar inicialmente, entretanto, não o impedem de montar o que é quase uma aula de narrativa cinematográfica. Mesmo com as restrições tecnológicas de época, o diretor elabora sequências de grande beleza visual e com fluência exemplar. Em alguns momentos, a ambição excede a capacidade de realização, caso da cena em que a tela é dividida em vários pequenos quadros (...) Na maior parte do tempo, não obstante, o resultado é magnífico. (...) E isso em um filme de 1927; em preto e branco; e mudo. Definitivamente, o talento e a visão derrotam qualquer obstáculo. Até mesmo o tempo".
O que eu achei: “Napoleão” (1927) de Abel Gance é uma das obras máximas da história do cinema. A versão que eu assisti possui duração total de 235 minutos (3h55m), mas esse tempo pode variar bastante dependendo da versão que você encontrar. Assistir a essa epopeia muda a forma como se enxerga a linguagem cinematográfica. Gance leva o cinema mudo ao seu limite técnico e emocional, criando um espetáculo de invenção e energia que continua surpreendendo um século depois. Sua ousadia formal, com câmeras em movimento vertiginoso, sobreposições de imagens, montagem acelerada e o famoso uso da tela tripla, antecipa recursos que só seriam retomados décadas mais tarde por cineastas modernos. Mais do que uma biografia do imperador francês, o filme é uma experiência sensorial e poética sobre o mito do gênio, da liderança e da revolução. Gance filma Napoleão como um símbolo do próprio cinema: ambicioso, visionário, disposto a ultrapassar fronteiras e desafiar o impossível. A música, a montagem e a mise-en-scène criam uma sinfonia visual que transforma cada sequência em um momento de pura inspiração artística. “Napoleão” é, em suma, uma obra-prima incontornável, uma daquelas criações que redefinem o que a arte pode ser. É um filme que não envelhece, apenas cresce, um monumento à imaginação, à técnica e ao poder expressivo do cinema como forma de arte.
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