22.5.11

"Don Juan" - Alan Crosland (EUA, 1926)

Sinopse: O filme conta a história de Don Juan (John Barrymore), o maior amante do mundo. Ele ama Adriana della Varnese (Mary Astor) porém, uma outra mulher chamada Lucrécia Borgia (Estelle Taylor) é apaixonada por ele. Lucrécia não aceita a rejeição e, com todo seu poder, manda prender os dois. 
Comentário: Alan Crosland (1894-1936) foi um cineasta americano. Ativo principalmente nos anos 1920, Crosland transitou entre o cinema mudo e o sonoro, sendo um dos diretores que ajudaram a viabilizar essa transição tecnológica. Assisti dele o importante "O Cantor de Jazz" (1927), considerado o filme que marcou a consolidação do cinema falado em Hollywood. Desta vez vou conferir "Don Juan" (1926).
Trata-se de um filme norte-americano do período do cinema mudo, lembrado principalmente por seu papel histórico no desenvolvimento do som no cinema.
O filme apresenta uma versão clássica da lenda de Don Juan, o sedutor espanhol conhecido por suas inúmeras conquistas amorosas e por desafiar convenções morais e sociais. Na trama, Don Juan retorna do exílio à corte espanhola e se envolve em intrigas políticas, duelos e romances, enquanto se apaixona por Donna Adriana, uma nobre prometida a outro homem. A narrativa combina romance, aventura e drama, culminando em conflitos de honra, poder e desejo.
O personagem de Don Juan é interpretado por John Barrymore, cuja atuação física e expressiva foi amplamente celebrada na época.
O filme não adapta um romance específico, mas se baseia na lenda literária de Don Juan, personagem criado na literatura espanhola do século XVII. A versão mais antiga e influente é a peça "El Burlador de Sevilla y Convidado de Piedra" (cerca de 1630), atribuída a Tirso de Molina. Desde então, Don Juan foi reinterpretado inúmeras vezes em peças, poemas, óperas e filmes, tornando-se um mito literário europeu.
O roteiro do filme adapta livremente esse imaginário, sem compromisso com uma obra literária única, apenas aproveitando como personagem uma figura lendária e arquetípica, usada ao longo da história para discutir temas como sedução, moralidade, poder masculino e punição. Embora o personagem tenha sido, em alguns momentos, associado a figuras históricas reais da Espanha medieval, não há consenso ou comprovação histórica de sua existência.
Embora seja um filme mudo, "Don Juan" ocupa um lugar especial na história do cinema por ter sido o primeiro longa-metragem comercial a utilizar uma trilha sonora sincronizada gravada (sistema Vitaphone), com música e efeitos sonoros, ainda sem diálogos falados. Esse experimento abriu caminho direto para "O Cantor de Jazz" (1927), também dirigido por Crosland.
O que eu achei: Em "Don Juan" (1926), Alan Crosland realiza um filme que se sustenta tanto pelo vigor dramático quanto por sua importância histórica. Dentro dos limites e convenções do cinema mudo, a narrativa flui com clareza, combinando romance, intriga política e aventura em um ritmo sólido, que mantém o interesse do início ao fim. A encenação é elegante, com cenários e figurinos que reforçam o caráter operístico da história e conferem ao filme um senso de grandiosidade pouco comum para a época. O grande destaque é a presença magnética de John Barrymore, que constrói um Don Juan carismático, físico e expressivo, plenamente adequado à linguagem silenciosa do período. Sua atuação sustenta o filme, equilibrando sedução, arrogância e vulnerabilidade, sem jamais cair na caricatura. A trilha sonora sincronizada - ainda uma novidade em 1926 - não é mero adorno técnico, mas contribui efetivamente para o clima dramático, antecipando a transição para o cinema sonoro de maneira orgânica. O que faz de Don Juan um filme bom é justamente essa combinação entre eficiência narrativa e ambição formal. Ele não se limita a ser um experimento tecnológico nem apenas uma adaptação de um mito literário consagrado; consegue funcionar como espetáculo cinematográfico completo dentro de seu contexto histórico. Visto hoje, mantém frescor suficiente para ser apreciado para além da curiosidade histórica, afirmando-se como um dos títulos mais sólidos da fase final do cinema mudo hollywoodiano.