17.4.11

"Anticristo" - Lars von Trier (Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/Polônia, 2009)

Sinopse: Um casal devastado pela morte de seu único filho se muda para uma cabana isolada na floresta Éden, onde coisas estranhas e obscuras começam a acontecer. A mulher (Charlotte Gainsbourg) é uma intelectual escritora que não consegue se livrar do sentimento de culpa pela morte do filho, e ele (Willem Dafoe), um psicanalista, que tenta exercer seu meio de trabalho para ajudar a esposa.
Comentário: Lars von Trier (1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios. Conhecido por ser provocador nas entrevistas, os comentários antissemitas de von Trier durante uma coletiva de imprensa em Cannes causaram uma controvérsia significativa na mídia, levando o festival a declará-lo como "persona non grata" e bani-lo do festival por um ano. Na sequência, o diretor divulgou uma desculpa formal informando que não era simpatizante do nazismo. Assisti dele a obra-prima "Dogville" (2003) e o ótimo "Manderlay" (2005). Desta vez vou conferir "Anticristo" (2009).
O filme é dividido em partes: o "Prólogo", o "Luto", a "Dor (Caos Reina)", o "Desespero (Genocídio)", "Os Três Mendigos" e o "Epílogo".
Luiz Zanin do Estadão publicou: "Com 'Anticristo', Lars von Trier causou polêmica no Festival de Cannes. A ponto de um jornalista exigir, na entrevista coletiva, que ele justificasse ter feito aquele filme. O dinamarquês, que não leva desaforo para casa, respondeu que não precisava justificar coisa nenhuma. O jornalista retrucou que, em se tratando daquele tipo de filme, sim, precisava. 
O bate-boca é exterior à obra. Mas serve para se aproximar dela. Digamos que, no caso, quem tem razão é o realizador. Ele faz a obra, quem quiser que a veja. Quem se sentir incomodado, saia da sala, previna os amigos, escreva contra, detone. O filme está lá. Denso, provocativo. Misterioso. Chocante. Por isso, embora sem dar-lhe razão, podemos entender a perplexidade do crítico que exigiu explicações ao diretor. 
Lars von Trier apresenta um filme de fato duro de ver. Em especial em duas sequências, que não serão descritas para não estragar, não digo o prazer do espectador, mas a sua surpresa. Mas como convém prevenir, é lícito avisar que se trata de cenas de tortura e mutilação. Filmadas com todos os detalhes, em realismo cru, de doer – literalmente. Há também cenas de sexo explícito, mas será que alguém se choca com elas hoje em dia? Já com a violência é outra coisa. 
Fica a polêmica: são cenas apelativas ou essenciais à estrutura do filme? Feitas para ‘épater’, chocar os desavisados, ou expressam o ponto terminal de uma mente atormentada? 
Cada espectador, de acordo com sua sensibilidade e entendimento da obra, terá uma resposta".
O que eu achei: "Anticristo" (2009) é uma experiência cinematográfica intensa, radical e, acima de tudo, profundamente sensorial. Se você quer saber o que é fotografia contemporânea, assista: o trabalho visual do filme é de tirar o fôlego. Cada quadro parece cuidadosamente composto, com uso expressivo de câmera lenta, contrastes e texturas que transformam a natureza em elemento vivo, quase opressor. A narrativa acompanha um casal - interpretado pelos ótimos Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg - que, após uma tragédia, se isola em uma cabana na floresta para lidar com o luto. A partir daí, o filme mergulha em um território psicológico e simbólico perturbador, onde dor, culpa e sexualidade se entrelaçam de forma cada vez mais extrema. Lars von Trier conduz a obra sem concessões. Não há preocupação em suavizar ou tornar a experiência confortável; ao contrário, o filme parece desafiar constantemente o espectador. É um cinema que exige entrega total. Veja com o espírito preparado, é para os fortes, ou então é melhor nem ver. A violência, tanto física quanto emocional, não é gratuita, mas tampouco é fácil de assimilar. O resultado é um filme excelente, que divide opiniões justamente por sua ousadia. "Anticristo" não busca consenso nem entretenimento convencional: é uma obra que provoca, incomoda e fascina na mesma medida, sustentada por uma força estética e emocional difícil de ignorar.