Sinopse: Após entulhar a Terra de lixo e poluir a atmosfera com gases tóxicos, a humanidade deixou o planeta e passou a viver em uma gigantesca nave no espaço. O plano era que o retiro durasse alguns poucos anos, enquanto robôs ficariam aqui limpando o planeta. Assim que nascesse alguma vegetação, os homens voltariam para recolonizá-la. Wall-E (Waste Allocation Load Life Earth-Class, ou seja, Elevador de Detritos Classe Terra) é o último desses robôs que se mantém em funcionamento graças ao sistema de auto conserto de suas peças. Sua vida se resume a compactar o lixo existente no planeta empilhando-os, e a colecionar objetos curiosos que vai encontrando pela frente: isqueiros, peças de vestuário, chaves e uma cópia em VHS do musical "Alô, Dolly", filme de 1969. Um certo dia surge no planeta Terra uma nave que traz um novo e moderno robô chamado EVA (Extra-Terrestrial Vegetation Evaluator, ou seja, Exterminadora de Vegetação Alienígena).
Comentário: Rubens Ewald Filho publicou: "Não se pode acusar a Pixar de viver às custas de suas glórias passadas e ter medo do novo. 'Wall-E' é um filme de animação com muito pouco diálogo e por isso mesmo com várias citações explícitas de '2001, uma Odisseia no Espaço', de Kubrick (que crianças não devem ter a menor ideia do que seja). Também um pouco de 'Alien' (inclusive Sigourney Weaver faz a voz do computador do Navio, mas quase tudo é limitado a sons mecânicos criados por Ben Burtt) e ainda mais claramente, do musical 'Alô, Dolly' (em particular da canção 'Put on You Sunday Clothes'). Mais comédia romântica e ficção cientifica do que simplesmente comédia, o novo filme de Andrew Stanton ('Procurando Nemo') talvez encante mais os adultos do que as crianças, o que por si só é um problema comercial. Ele rendeu no Brasil metade do que 'Kung Fu Panda'! Nem por isso deixa de ser encantador e adorável. (...) O filme cai um pouco em lugares comuns, virando sátira leve e fita de perseguição. Mas é tecnicamente muito bem realizado, poético e completamente diferente de tudo que a Pixar fez antes. (...) Obviamente não é para perder".
O que eu achei: Em "Wall-E" (2008), a Pixar realiza um de seus experimentos mais ousados: contar uma história de amor e sobrevivência com pouquíssimos diálogos, apostando na força da imagem e do som. O resultado é uma animação que emociona pela simplicidade e impressiona pela ambição temática. A primeira parte, ambientada em uma Terra abandonada e coberta por lixo, é praticamente um filme mudo contemporâneo. Wall-E, pequeno robô compactador, expressa curiosidade e solidão com gestos mínimos e olhares eletrônicos cheios de humanidade. A chegada de Eve altera o ritmo e introduz uma dinâmica romântica delicada, conduzida mais por ações do que por palavras. Visualmente, o contraste entre o planeta devastado e a nave espacial hiperautomatizada é marcante. A animação cria texturas realistas para os resíduos e uma estética fria e asséptica para a vida no espaço, reforçando a crítica ao consumismo e à dependência tecnológica. Mesmo com esse subtexto ambiental e social evidente, o filme nunca abandona o encanto e o humor. A trilha sonora e o desenho de som são essenciais para a construção emocional. Cada ruído mecânico vira linguagem, cada silêncio ganha significado. A ousadia de sustentar longos trechos sem diálogos tradicionais demonstra confiança narrativa rara no cinema de animação comercial. "Wall-E" é ao mesmo tempo fábula ecológica, romance futurista e aventura espacial. Consegue ser acessível às crianças e profundamente reflexivo para adultos. Sensível, visualmente deslumbrante e narrativamente corajoso, é uma obra que confirma o potencial da animação como forma de arte capaz de emocionar e provocar reflexão. Imperdível.
