Sinopse: Uma atriz teatral de sucesso (Liv Ullmann) sofre uma crise emocional e emudece. Para se recuperar ela se interna num hospital, onde conhece a enfermeira Alma (Bibi Andersson), designada para cuidar dela. Após um período de internação, a diretora do hospital acha melhor que a atriz e a enfermeira sigam para uma casa na praia, a fim de retirar a atriz daquele ambiente hospitalar. A enfermeira, que a admira muito, tenta compreender a razão de seu silêncio. Isoladas, as duas mulheres desenvolvem uma relação de forte intensidade emocional.
Comentário: Ingmar Bergman (1919-2007) é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Sua produção engloba em torno de uns 60 filmes. Assisti dele as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957) e "Morangos Silvestres" (1957). Desta vez vou conferir "Persona" (1966).
Trata-se de um filme enigmático e, como é habitual em Bergman, de forte cunho psicológico.
Segundo Rubens Ewald Filho, "é um dos grandes filmes do mestre Ingmar Bergman, notável em vários aspectos, inclusive por ter sido o primeiro trabalho com sua então nova mulher, a atriz norueguesa Liv Ullmann, que seria sua parceira em algumas outras obras primas. (...)
É bem descrito pelo trailer original americano que diz que 'Persona' é o reconhecimento da nossa terrível solidão, nossa singularidade, nossa inabilidade de se comunicar com os outros. É uma confissão de nossos medos, do homem, do fracasso, da morte. É o drama do desespero, o silencio, o terror indescritível da vida em todos os aspectos. É um drama da sensibilidade da pele, de rostos e palavras não entendidas. Persona é uma ilusão estilhaçada, uma vitória sobre o silencio.
Popularizou o termo 'persona' que é o nome da máscara teatral greco-romana e, por extensão, também as máscaras que usamos na vida profissional ou pessoal.
Um dueto para as duas atrizes emolduradas pela fotografia genial de Sven Nykvist.
Rodado na própria casa e ilha do diretor, em Faro.
Bibi fala o tempo todo e Liv diz apenas uma única palavra, 'nada'".
O que eu achei: Trata-se talvez da expressão mais radical e fascinante do cinema de Ingmar Bergman: uma obra que ultrapassa os limites da narrativa tradicional para se afirmar como experiência sensorial, psicológica e filosófica. Mais do que contar uma história, o filme investiga a própria natureza da identidade, da linguagem e da representação, colocando o espectador diante de um espelho inquietante. É cinema em seu estado mais puro e arriscado, onde cada imagem parece carregar um pensamento e cada silêncio se transforma em discurso. A relação entre Alma e Elisabet, interpretadas magistralmente por Bibi Andersson e Liv Ullmann, constitui o coração pulsante do filme. À medida que as fronteiras entre as duas se dissolvem, Bergman desmonta as noções convencionais de sujeito, máscara e verdade. A famosa fusão de rostos - um dos planos mais icônicos da história do cinema - não é apenas um recurso estético, mas a materialização visual de um conflito interno: quem somos quando deixamos de representar para o mundo? A encenação austera, a fotografia contrastada de Sven Nykvist e o uso radical do silêncio criam uma atmosfera hipnótica, quase ritualística. Em "Persona", Bergman parece abandonar qualquer concessão narrativa para alcançar algo mais essencial: uma experiência de confronto. O filme desafia, inquieta e provoca, recusando explicações fáceis e convidando o espectador a participar ativamente de seu enigma. É uma obra que não se esgota na primeira nem na décima visão, pois sua força reside justamente na ambiguidade. Ao transformar crise, silêncio e identidade em matéria cinematográfica, Bergman realiza aqui não apenas um de seus maiores filmes, mas um dos grandes marcos da história do cinema.
