Sinopse: Remy é um ratinho que descobre ter o dom de saber combinar alimentos, transformando-se num excelente "chef de cuisine". O acaso o leva para dentro de um restaurante e ele acaba ajudando um recém contratado faxineiro a se tornar famoso pelas suas receitas.
Comentário: Segundo Rubens Ewald Filho, "a Disney tem uma bela tradição gastronômica em seus desenhos animados. (...) Mas nunca investiram numa história deste porte, que dá uma visão inesperada e completa do que é uma cozinha, como funciona, quais são seus heróis e vilões, problemas e achados.
Um mundo fascinante, do qual o herói sonha em participar. 'Ratatouille' é o primeiro filme de animação a ter a culinária como tema central. Certamente uma contribuição da inovadora Pixar (que se fundiu à Disney depois de ter revolucionado a animação), que chamou para dirigi-lo Brad Bird (que veio do êxito de 'Os Incríveis') associado a Jan Pinkawa (que é conhecido por ter ganho o Oscar de curta de animação pelo ótimo filme 'GeriŽs Game').
O interessante é tentar unir dois mundos até agora opostos: o dos restaurantes cinco estrelas com o de um rato (notem bem, não os fofinhos camundongos), que, por isso, se comporta, como diz a expressão, como um peixe fora d'água.
É o sonho impossível, ou quase, que todos nós temos dentro da gente. Ou seja, no fundo todos somos Remy".
O que eu achei: Em "Ratatouille", Brad Bird transforma uma premissa improvável - um rato que sonha em ser chef em Paris - em uma das animações mais elegantes e inspiradoras do estúdio. O que poderia soar como simples fábula infantil ganha densidade ao tratar de talento, vocação e preconceito com rara delicadeza. Remy não quer apenas sobreviver; ele quer criar. Esse desejo move a narrativa com sinceridade e torna o filme mais do que uma aventura culinária. Ao colocá-lo nos bastidores de um restaurante francês, a história constrói um contraste constante entre o mundo sofisticado da alta gastronomia e a condição marginal do protagonista. A tensão dramática nasce justamente dessa contradição. Visualmente, a animação impressiona pela recriação de Paris e, sobretudo, pela maneira como os alimentos são representados. Texturas, cores e movimentos tornam cada prato quase palpável. A câmera se comporta como em um filme live-action, com movimentos fluidos e enquadramentos que valorizam tanto a grandiosidade da cidade quanto a intimidade da cozinha. O roteiro equilibra humor e emoção sem apelar para excessos. Há momentos genuinamente engraçados, mas também cenas de sensibilidade inesperada, especialmente no desfecho envolvendo o crítico gastronômico Anton Ego. A mensagem central, sintetizada na ideia de que “qualquer um pode cozinhar”, não é ingênua: ela fala sobre reconhecer talento onde menos se espera. "Ratatouille" é vibrante, espirituoso e emocionalmente maduro. Consegue agradar ao público infantil com sua aventura ágil, ao mesmo tempo em que oferece aos adultos uma reflexão sobre arte, crítica e autenticidade. É uma animação que diverte, encanta e deixa o sabor de um grande prato bem executado.
