Sinopse: Brandon (John Dall) e Philip (Farley Granger) matam David Kentley (Dick Hogan), um colega da escola preparatória, apenas para terem a sensação de praticar um assassinato e provar que conseguem realizar o crime perfeito. Para desafiar os amigos e a família, resolvem convidá-los para uma reunião no apartamento deles, onde colocam a comida em cima de um baú, dentro do qual está o corpo da vítima.
Comentário: Alfred Hitchcock (1899-1980) foi um diretor e produtor cinematográfico britânico. Amplamente considerado um dos mais reverenciados e influentes cineastas de todos os tempos, Hitchcock foi eleito pelo The Telegraph o maior diretor da história da Grã-Bretanha e, pela Entertainment Weekly, o maior do cinema mundial. Conhecido como "Mestre do Suspense", dirigiu em torno de 53 longas-metragens ao longo de seis décadas de carreira, parte dela na Inglaterra, parte nos EUA. Tornou-se também famoso também por conta das frequentes aparições em seus filmes e pela apresentação do programa "Alfred Hitchcock Presents" (1955-1965). Assisti dele os ótimos "O Inquilino" (1927), "Chantagem e Confissão" (1929), "Sabotagem" (1936), "Jovem e Inocente" (1937), "A Dama Oculta" (1938), "A Sombra de Uma Dúvida" (1943), "Interlúdio" (1946), "Disque M para Matar" (1954) e "O Homem Que Sabia Demais" (1956) e os bons: "Os 39 Degraus" (1935), "O Agente Secreto" (1936), "A Estalagem Maldita" (1939), "Correspondente Estrangeiro" (1940) e "Pavor nos Bastidores" (1950). Desta vez vou conferir "Festim Diabólico" (1948).
A história do filme foi inspirada no caso Leopold-Loeb, em que dois estudantes da Universidade de Chicago cometeram um assassinato de forma bem parecida com a mostrada no filme.
Segundo Alexandre Koball do Cine Players, "assistir o filme pela primeira vez é enfrentar uma tensão crescente que poucos diretores já conseguiram passar para as telas. Nada de fantasmas ou aparições, 'Festim Diabólico' trata do real, apresentando os maiores defeitos e qualidades das emoções humanas, funcionando tanto como um simples entretenimento quanto um estudo aprofundado de personagens.
Gravado totalmente em estúdio, este é talvez o filme mais experimental do diretor e, portanto, o mais ousado. É seu primeiro filme colorido, mas não é experimental por causa disso: ele foi filmado em apenas 10 tomadas de oito minutos cada uma. Oito minutos de filme, para a época, era o máximo que um rolo de filme podia suportar. Mas boa parte dos cortes presentes entre essas tomadas são imperceptíveis (o que torna a técnica do filme ainda mais genial): Hitchcock utilizou truques de edição para tentar disfarçar o máximo possível a passagem entre os poucos rolos de filme utilizados”.
O que eu achei: "Festim Diabólico" (1948) é simplesmente sensacional. Pra começar ele envolve um experimento técnico ousado: ser concebido para parecer filmado em um único plano-sequência, com poucos cortes habilmente disfarçados, criando uma sensação de tempo real e continuidade raramente vista no cinema da época. Toda a ação se passa em um único apartamento, o que aumenta a intensidade dramática e mantém o espectador constantemente atento aos detalhes. No elenco afiado temos James Stewart que traz carisma e inteligência ao papel do professor, enquanto John Dall e Farley Granger interpretam os assassinos com frieza e arrogância perturbadoras. O público sabe desde o início quem cometeu o crime, então a tensão vem do risco da descoberta e dos diálogos cheios de ironia e duplo sentido. As conversas sobre moralidade, poder e superioridade intelectual dão ao filme uma camada filosófica, indo além de um simples thriller policial. A narrativa é condensada e intensa, com a história se passando em poucas horas, o que aumenta a imersão e a sensação de urgência. Baseado em uma peça - que por sua vez se inspirou em um caso real - o filme preserva a força dos diálogos e da encenação sem perder a fluidez cinematográfica. Uma obra-prima. Não morra sem ver.
