8.10.10

"Jejum de Amor" - Howard Hawks (EUA, 1940)

Sinopse: Walter Burns (Cary Grant), editor de um grande jornal de Chicago, está prestes a ver sua ex-esposa e repórter (Rosalind Russel) casando-se novamente, agora com um corretor de seguros. Mas antes ele quer vê-la escrevendo uma última grande história. Ou talvez queira tentar reconquistá-la.
Comentário: Howard Hawks (1896-1977) foi um diretor de cinema, produtor e roteirista americano da era clássica de Hollywood. Conhecido por sua versatilidade, Hawks explorou muitos gêneros, como comédias, dramas, thriller policial, ficção científica, noir, filmes de guerra e faroestes. Assisti dele o ótimo "Hatari!" (1962) e o bom "Levada da Breca" (1938). Desta vez vou conferir "Jejum de Amor" (1940),  um longa escrito por Charles Lederer baseado na peça "A Primeira Página" de Ben Hecht e Charles MacArthur.
Silvio Pilau escreveu que não se fazem mais filmes como antigamente. Tudo bem, este é um clichê utilizado por saudosistas da “época de ouro” de Hollywood para falar mal das produções atuais, mas o fato é que não deixa de ser verdade. Algumas características presentes no cinema dos anos 30, 40 e 50 perderam-se no tempo, sendo praticamente impossível encontrá-las em filmes realizados nos dias de hoje. Então prepare-se para ver uma comédia romântica bem anos 40.
O que eu achei: Em "Jejum de Amor" (1940), Howard Hawks atinge um equilíbrio notável entre velocidade, inteligência e elegância, refinando a comédia screwball a um nível de precisão quase perfeito. O reencontro de Cary Grant e Rosalind Russell produz faíscas imediatas: os diálogos cortantes, ditos em ritmo vertiginoso, transformam cada cena em um duelo verbal delicioso. Hawks filma o jornalismo como um ambiente de adrenalina constante, onde o amor, a ambição profissional e o prazer da competição se confundem. Diferente de outras comédias da época, o filme não depende apenas do absurdo das situações, mas da química extraordinária entre os personagens e da clareza com que o diretor organiza o caos. O que torna "Jejum de Amor" tão envolvente é sua modernidade surpreendente. Rosalind Russell assume uma posição de força raríssima para o cinema clássico, conduzindo a narrativa com inteligência e autonomia, enquanto Cary Grant encarna um charme manipulador que nunca perde a leveza. A mise-en-scène de Hawks, econômica e funcional, mantém o foco absoluto na palavra, no gesto e no ritmo, provando que a sofisticação pode nascer da simplicidade. O resultado é uma comédia que diverte sem esforço aparente e permanece viva décadas depois: espirituosa, afiada e irresistivelmente confiante em sua própria velocidade.