3.10.10

"Elefante" - Gus Van Sant (EUA, 2003)

Sinopse: Enquanto a maior parte da escola está envolvida em atividades cotidianas, dois alunos (Alex Frost e Eric Deulen) esperam, em casa, a chegada de uma metralhadora semiautomática, com altíssima precisão e poder de fogo. Munidos de um arsenal que vinham colecionando, os dois partem para a escola, onde serão protagonistas de uma grande tragédia.
Comentário: Gus Van Sant (1952) é um cineasta e roteirista norte-americano. Formou-se pelo Rhode Island School of Design. Lá foi influenciado pela pintura e pelo cinema experimental. Em 1981, ele filmou com um baixo orçamento o filme "Alice in Hollywood", que nunca foi lançado. Trabalhou para uma agência de publicidade a fim de ganhar dinheiro. Com o dinheiro que ganhou, dirigiu o filme independente "Mala Noche" (1985) que contém alguns temas constantes de sua obra como a homossexualidade e uma abordagem do absurdo. "Mala Noche" foi bem recebido pelos críticos. Desde então ele dirigiu vários filmes. "Elefante" (2003) é o primeiro filme que vejo dele.
Baseado nos acontecimentos da Columbine High School, em que dois alunos resolvem assassinar colegas e funcionários, o drama nos leva para dentro de uma escola secundarista americana em um dia comum, que rapidamente se torna trágico. A história se desdobra, cheia de tarefas em classe, futebol, fofocas e socialização. Observa as idas e vindas de seus personagens a uma distância segura, nos permitindo vê-los como eles são. Com cada estudante vemos a escola através de uma experiência diferente, uma nova lente. Estas experiências mudam de amigáveis e inocentes a traumáticas e muito perturbadoras, demonstrando que a vida nas escolas é uma complexa paisagem onde a vitalidade e a beleza de vidas jovens pode mudar da luz para a escuridão com velocidade surreal. É um dia comum que, ao final, vai se transformar numa tragédia.
Todos os alunos são interpretados por verdadeiros secundaristas de Portland, que utilizam até mesmo seus nomes verdadeiros na ficção. Só os poucos adultos são profissionais. 
O longa recebeu os prêmios Palma de Ouro e de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2003.
Para saber mais sobre o acontecimento vale assistir ao documentário "Tiros em Columbine" de Michael Moore, lançado em 2002.
O que eu achei: "Elefante" (2003) é um daqueles filmes que permanecem na mente não porque ofereçam respostas, mas porque fazem perguntas que perturbam e, de certa forma, insistem em nos confrontar com o incômodo daquilo que não se pode explicar. É um trabalho ousado, sutil e profundamente impactante. Desde os primeiros minutos, o filme já deixa claro que sua proposta não é narrar 'o que aconteceu', muito menos justificar ou demonizar alguém. Em vez disso, Van Sant nos convida a acompanhar fragmentos de um dia comum na vida de estudantes, professores, corredores vazios e salas de aula cheias de sussurros. O uso de tomadas longas que seguem personagens andando pelos corredores - muitas vezes sem cortes rápidos - cria uma sensação de realismo sufocante. Esse estilo 'observador' nos põe quase como voyeurs, testemunhas de uma rotina que parece familiar, até que se torna insuportável. A cinematografia de Harris Savides merece destaque especial: ele consegue equilibrar uma estética visual muito limpa, quase clínica, com uma atmosfera de tensão constante, justamente por causa dessa tranquilidade visual. A luz, os espaços escolares - corredores, salas, áreas de convívio - são apresentados quase sem artifícios, e isso amplifica o efeito dramático quando a normalidade é rompida pela violência. O som acompanha esse ritmo mínimo: quase nada de trilha sonora pomposa, mas sim ruídos ambientes - passos, portas batendo, vozes correndo, sussurros, respirações. Essa sonoridade silenciosa, muitas vezes incômoda, funciona como contraponto ao silêncio brutal que antecede e sucede os momentos de choque. É uma escolha que dá ao espectador espaço para pensar, para sentir, sem ser embalado por manipulações evidentes. O que talvez mais me impressionou é essa capacidade do filme de ser ao mesmo tempo frio e empático. Frio na estrutura, no ritmo, na recusa de melodrama e empático na atenção aos personagens, nas brechas de humanidade no ordinário, nas pequenas interações que nos lembram que ali há pessoas comuns, com desejos, medos e incertezas. Apesar de investirmos pouco no background de quase todos, nos sentimos próximos deles, porque Van Sant cria situações em que o banal já é poderoso. "Elefante" se torna então um filme corajoso e  necessário, que não nos entrega conforto, mas tampouco se esquiva da responsabilidade de mostrar. É uma experiência que marca, que permanece depois dos créditos, e que merece ser revisitada. Entrega algo que vai muito além de um entretenimento pois traz uma reflexão silenciosa sobre violência, banalidade e vulnerabilidade.