Sinopse: Londres, 1920. Alice White (Anny Ondra) mata acidentalmente um pintor (Cyril Ritchard) que tentava estuprá-la. Ela e seu noivo Frank Webber (John Longden), que é o policial da Scotland Yard encarregado das investigações, passam a ser chantageados por um homem que testemunhou o crime.
Comentário: Alfred Hitchcock (1899-1980) foi um diretor e produtor cinematográfico britânico. Amplamente considerado um dos mais reverenciados e influentes cineastas de todos os tempos, Hitchcock foi eleito pelo The Telegraph o maior diretor da história da Grã-Bretanha e, pela Entertainment Weekly, o maior do cinema mundial. Conhecido como "Mestre do Suspense", dirigiu em torno de 53 longas-metragens ao longo de seis décadas de carreira, parte dela na Inglaterra, parte nos EUA. Tornou-se também famoso também por conta das frequentes aparições em seus filmes e pela apresentação do programa "Alfred Hitchcock Presents" (1955-1965). Assisti dele os ótimos "O Inquilino" (1927), "Sabotagem" (1936), "Jovem e Inocente" (1937), "A Dama Oculta" (1938), "A Sombra de Uma Dúvida" (1943) e "O Homem Que Sabia Demais" (1956) e os bons "Os 39 Degraus" (1935), "O Agente Secreto" (1936), "A Estalagem Maldita" (1939) e "Correspondente Estrangeiro" (1940). Desta vez vou conferir "Chantagem e Confissão" (1929).
Primeiro filme sonoro de Alfred Hitchcock, ''Chantagem e Confissão'' - baseado em peça teatral de Charles Bennett - traz um elemento comum na obra do diretor: a reflexão em torno do tema sexo. O argumento é simples mas de forte impacto. Hitchcock construiu uma trama intrincada, em que há a fusão do trinômio sexo-crime-culpa. Até onde o espectador pode ver, sabe-se que a jovem fora mesmo vítima de um ataque, mas o diretor deixa evidências de que o apelo sexual é determinante. É este apelo que leva ao crime e, consequentemente, à culpa. Não apenas da garota, agora na condição de criminosa, mas também porque fica a suspeita do detetive de que realmente pode ter sido traído pela noiva.
''Blackmail'', na verdade, primeiro foi rodado como filme mudo (numa versão de 75 minutos). A sonorização veio depois e mesmo assim vale prestar atenção na criatividade do diretor na colocação precisa dos sons concatenados com a imagem. A atriz Anny Ondra foi dublada por ter um sotaque acentuadamente germânico.
O que eu achei: "Chantagem e Confissão" (1929) é um marco histórico do cinema britânico: foi um dos primeiros filmes sonoros do Reino Unido, mostrando a capacidade de Hitchcock de tentar se adaptar rapidamente às novas tecnologias. Conta-se que ele primeiro foi rodado como filme mudo e a sonorização foi colocada depois, com o diretor já se mostrando inventivo ao criar a famosa cena da palavra 'faca', repetida de maneira obsessiva na cabeça da protagonista, explorando o som de forma psicológica e não apenas ilustrativa. As imagens do longa são muito expressivas, mostrando uma protagonista feminina complexa - a personagem de Anny Ondra - com nuances dramáticas, fugindo de estereótipos e trazendo ambiguidade moral à história. Os dilemas internos da protagonista conta com ótimos recursos de iluminação e enquadramento dando credibilidade à trama. Apesar das limitações técnicas da época (final dos anos 1920), o filme mantém boa cadência entre momentos de suspense, investigação e drama pessoal. Atenção à memorável perseguição final no Museu Britânico que se destaca pela tensão e criatividade visual. Excelente.
