
Comentário: Pedro Freire (1980) é um cineasta brasileiro, filho dos atores Malu Rocha e Herson Capri. Ele dirigiu 5 curtas-metragens além de 7 telenovelas e seriados. “Malu” (2024) é seu primeiro longa.
O site do IMS nos conta que “Malu é uma mulher com um passado glorioso na atuação, mas cuja carreira chegou ao ostracismo. Em um casarão em construção, afastado dos centros urbanos, vive com sua mãe conservadora e seu amigo Tibira. Eventualmente recebe visitas da filha. A complexa relação entre as três mulheres oscila entre momentos de carinho e ternura e rompantes de ressentimento e agressividade. No terraço de sua casa, Malu quer construir um teatro.
Livremente inspirado na vida da atriz paulista Malu Rocha, mãe do diretor Pedro Freire, Malu faz um agudo e nuançado retrato de relações familiares e de uma atriz afastada da profissão. (...)
Para seu primeiro longa-metragem, conta ao Jornal do Brasil: ‘Eu queria que meu primeiro longa fosse um filme inevitável para mim. (...) Então ali por 2017, aos 36 anos, eu decidi que tinha chegado a hora de tomar uma decisão: que primeiro longa seria esse? Então me conectei com as coisas mais importantes para mim, busquei o que seria tão profundo que só eu poderia fazer, e me encontrei com a pessoa mais importante e transformadora da minha vida, minha mãe, Malu Rocha. Digo com nome e sobrenome porque ela foi além de uma mãe, ela era mãe e ao mesmo tempo tinha uma persona, ‘a atriz Malu Rocha’, que ela levava para dentro de casa o tempo todo. E aquela personagem dentro da minha casa não era simples, porque ao mesmo tempo era difícil a distância – imagina que a sua mãe está sempre atuando – e também era fascinante, porque era uma personagem maravilhosa, inteligentíssima, humana, corajosa, culta. Enfim decidi que tinha que contar a história dela e entendi que a parte de sua história que mais me marcou foi o momento em que ela ficou mais isolada do mundo, dos amigos, morando com a mãe numa casa semiconstruída numa favela do Rio de Janeiro, sempre dizendo que queria voltar para São Paulo’”.
Mas quem foi Malu Rocha (1947-2013)?
1969 - Ela fez sua estreia nos palcos no Teatro Oficina, com a peça "Don Juan" de Molière, dirigida por Fernando Peixoto. O espetáculo seguia a linha diretiva de José Celso Martinez Corrêa.
O site do IMS nos conta que “Malu é uma mulher com um passado glorioso na atuação, mas cuja carreira chegou ao ostracismo. Em um casarão em construção, afastado dos centros urbanos, vive com sua mãe conservadora e seu amigo Tibira. Eventualmente recebe visitas da filha. A complexa relação entre as três mulheres oscila entre momentos de carinho e ternura e rompantes de ressentimento e agressividade. No terraço de sua casa, Malu quer construir um teatro.
Livremente inspirado na vida da atriz paulista Malu Rocha, mãe do diretor Pedro Freire, Malu faz um agudo e nuançado retrato de relações familiares e de uma atriz afastada da profissão. (...)
Para seu primeiro longa-metragem, conta ao Jornal do Brasil: ‘Eu queria que meu primeiro longa fosse um filme inevitável para mim. (...) Então ali por 2017, aos 36 anos, eu decidi que tinha chegado a hora de tomar uma decisão: que primeiro longa seria esse? Então me conectei com as coisas mais importantes para mim, busquei o que seria tão profundo que só eu poderia fazer, e me encontrei com a pessoa mais importante e transformadora da minha vida, minha mãe, Malu Rocha. Digo com nome e sobrenome porque ela foi além de uma mãe, ela era mãe e ao mesmo tempo tinha uma persona, ‘a atriz Malu Rocha’, que ela levava para dentro de casa o tempo todo. E aquela personagem dentro da minha casa não era simples, porque ao mesmo tempo era difícil a distância – imagina que a sua mãe está sempre atuando – e também era fascinante, porque era uma personagem maravilhosa, inteligentíssima, humana, corajosa, culta. Enfim decidi que tinha que contar a história dela e entendi que a parte de sua história que mais me marcou foi o momento em que ela ficou mais isolada do mundo, dos amigos, morando com a mãe numa casa semiconstruída numa favela do Rio de Janeiro, sempre dizendo que queria voltar para São Paulo’”.
Mas quem foi Malu Rocha (1947-2013)?
1969 - Ela fez sua estreia nos palcos no Teatro Oficina, com a peça "Don Juan" de Molière, dirigida por Fernando Peixoto. O espetáculo seguia a linha diretiva de José Celso Martinez Corrêa.
Outros papéis no teatro:
1969 - "Hair", dirigido por Adhemar Guerra;
1971 – "Balbina de Iansã", dirigida por Plínio Marcos;
1972 - "Abelardo e Heloísa" dirigida por Flávio Rangel;
1979 - Ao lado do ator Herson Capri, à época seu companheiro, fundou a companhia de teatro Viagem Produções Artísticas, com a qual montou "Sob o Signo da Discotèque" (1979), de Plínio Marcos;
1982 – "Pegue e Não Pague" (1982) de Dario Fo;
1984 – " Um Casal Aberto Ma Non Troppo" de Dario Fo;
1988 – "Ladrão Que Rouba Ladrão";
1990 – "Boca Molhada de Paixão Calada" de Leilah Assunção;
2002 – "A Mancha Roxa" de Plínio Marcos, com direção de Roberto Lage, quando contracenou pela primeira vez com sua filha, Isadora Ferrite;
2010 – "O Interrogatório" dirigida por Eduardo Wotzik, com texto de Peter Weiss. O espetáculo narra o Julgamento de Frankfurt, o qual condenou nazistas pelos crimes de Auschwitz, e foi definido como ‘vigília cênica’ pelo grupo carioca Centro de Investigação Teatral, tendo sido apresentado em formatos de 24, 12 e 6 horas de duração.
No cinema:
1972 – "Geração em Fuga", dirigido por Mauricio Nabuco;
1977 – "O Crime do Zé Bigorna", dirigido por Anselmo Duarte;
1977 – "Mágoa de Boiadeiro";
1979 – "Bandido, Fúria do Sexo";
1984 – "Como Salvar Meu Casamento".
Na TV, Malu Rocha fez diversas novelas, entre as quais:
1975 – "Pecado Capital" (1975)
1977 – "Um Sol Maior";
1982 – "O Pátio das Donzelas";
1982 – "O Homem Proibido"
1983 – "Eu Prometo";
2007 – "Paraíso Tropical" (2007)
2008 – "Sete Pecados".
Malu faleceu em 7 de junho de 2013, aos 65 anos, por complicações em decorrência do mal de Príon - doença que atinge o cérebro. Seu velório foi realizado no Teatro Oficina.
O longa conta com as interpretações de Yara de Novaes, Carol Duarte, Juliana Carneiro da Cunha e Átila Bee. Depois de passar pelo Festival de Sundance, em janeiro deste ano, ‘Malu’ fez sua estreia brasileira no Festival do Rio, no qual recebeu os prêmios de Melhor Longa de Ficção, Roteiro, Atriz (para Novaes) e Atriz Coadjuvante (dividido entre Carneiro e Duarte).
O que disse a crítica 1: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Chamar Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha de coadjuvantes é um desrespeito às atuações, e também ao interesse central de ‘Malu’. Duarte e Carneiro da Cunha são extremos de uma mesma linha, na qual Yara de Novaes é o centro, mas o filme de Pedro Rocha funciona porque entende cada uma dessas mulheres como pessoas reais, e encontra em cada relacionamento o combustível para tratar das diferenças e semelhanças entre as três. O que se perde de uma geração para a outra? O que acontece quando a anterior se decepciona com a geração seguinte, e vice-versa? Na família de Malu, temos as respostas”.
O que disse a crítica 2: Laura Machado do site Cinematório também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “A ficção criada por Pedro Freire como forma de homenagear a história de sua mãe é pessoal e repleta de singularidades. Porém, é também extremamente fácil para o espectador se conectar com a obra e enxergar sua própria vivência naquelas personagens. ‘Malu’ é um extravasamento que escorre do seio familiar e explode diante do mundo. É um retrato ficcional daquilo que é real”.
O que eu achei: "Malu" (2024), primeiro longa de Pedro Freire, é um filme profundamente íntimo e ao mesmo tempo universal, que transforma a experiência pessoal do diretor em matéria cinematográfica de rara sensibilidade. Livremente inspirado na vida de sua mãe, a atriz paulista Malu Rocha, o filme escolhe não fazer uma biografia tradicional, mas sim um recorte emocional: o período em que ela é obrigada a se isolar do mundo por problemas financeiros e já às voltas com os primeiros sinais de uma doença neurodegenerativa que mais tarde seria diagnosticada como Mal de Príon. Freire concentra a narrativa nesse momento de suspensão da vida, quando o tempo parece desacelerar e a existência passa a ser atravessada por perdas, impasses e silêncios. A personagem de Malu, interpretada com impressionante entrega por Yara de Novaes, vive em uma casa inacabada, sem reboco, numa comunidade do Rio de Janeiro. Esse espaço físico funciona como extensão de seu estado emocional: um lugar em permanente construção, instável, precário, mas ainda pulsante de desejo criativo. Ali, ela tenta manter vivo o sonho de transformar sua casa em um centro cultural, insistindo na arte como forma de resistência ao esquecimento e à marginalização. O roteiro evita explicações fáceis ou didatismos sobre essa doença rara, fatal e ainda pouco compreendida, e opta por sugerir seus efeitos por meio de lapsos de memória e mudanças de comportamento. Malu é retratada como uma mulher intensa, impulsiva, por vezes difícil, mas absolutamente magnética. Uma figura que vive no limite entre a lucidez e o excesso, entre o afeto e a explosão. A relação com a mãe conservadora e religiosa, vivida por uma extraordinária Juliana Carneiro da Cunha, revela camadas profundas de afeto, ressentimento e dependência, enquanto a presença da filha Joana, interpretada por Carol Duarte, introduz um contraponto mais jovem, afetivo e observador. Não a toa, o diretor já afirmou que essa personagem é uma amálgama dele próprio com sua meia-irmã Isadora Ferrite (roteirista, assistente de direção e realizadora), o que confere ao filme um tom ainda mais confessional. Chama atenção o cuidado em não transformar a trajetória de Malu em melodrama. Mesmo diante de uma doença devastadora, o filme aposta na contenção, no humor ocasional, na vitalidade contraditória de uma mulher que se recusa a desaparecer em silêncio. Também é significativa a decisão de nunca citar explicitamente os nomes reais de seus ex-maridos, entre eles figuras conhecidas como Zanoni Ferrite e Herson Capri (ambos atores, diretores e produtores teatrais), reforçando o caráter ficcional e subjetivo da obra. Para quem, como eu, guarda apenas uma lembrança vaga de Malu Rocha, o filme funciona como um reencontro tardio, uma espécie de reparação poética. "Malu" não tenta reconstruir uma carreira, mas compreender uma presença. E faz isso com delicadeza, rigor e uma profunda empatia. Ao final o que fica é a impressão de ter assistido a um retrato raro de uma mulher complexa, artista até o fim, capturada com respeito e amor pelo olhar do próprio filho. Um filme tocante, maduro e humano. Grande estreia de Pedro Freire na direção de um longa! Super recomendo.
1969 - "Hair", dirigido por Adhemar Guerra;
1971 – "Balbina de Iansã", dirigida por Plínio Marcos;
1972 - "Abelardo e Heloísa" dirigida por Flávio Rangel;
1979 - Ao lado do ator Herson Capri, à época seu companheiro, fundou a companhia de teatro Viagem Produções Artísticas, com a qual montou "Sob o Signo da Discotèque" (1979), de Plínio Marcos;
1982 – "Pegue e Não Pague" (1982) de Dario Fo;
1984 – " Um Casal Aberto Ma Non Troppo" de Dario Fo;
1988 – "Ladrão Que Rouba Ladrão";
1990 – "Boca Molhada de Paixão Calada" de Leilah Assunção;
2002 – "A Mancha Roxa" de Plínio Marcos, com direção de Roberto Lage, quando contracenou pela primeira vez com sua filha, Isadora Ferrite;
2010 – "O Interrogatório" dirigida por Eduardo Wotzik, com texto de Peter Weiss. O espetáculo narra o Julgamento de Frankfurt, o qual condenou nazistas pelos crimes de Auschwitz, e foi definido como ‘vigília cênica’ pelo grupo carioca Centro de Investigação Teatral, tendo sido apresentado em formatos de 24, 12 e 6 horas de duração.
No cinema:
1972 – "Geração em Fuga", dirigido por Mauricio Nabuco;
1977 – "O Crime do Zé Bigorna", dirigido por Anselmo Duarte;
1977 – "Mágoa de Boiadeiro";
1979 – "Bandido, Fúria do Sexo";
1984 – "Como Salvar Meu Casamento".
Na TV, Malu Rocha fez diversas novelas, entre as quais:
1975 – "Pecado Capital" (1975)
1977 – "Um Sol Maior";
1982 – "O Pátio das Donzelas";
1982 – "O Homem Proibido"
1983 – "Eu Prometo";
2007 – "Paraíso Tropical" (2007)
2008 – "Sete Pecados".
Malu faleceu em 7 de junho de 2013, aos 65 anos, por complicações em decorrência do mal de Príon - doença que atinge o cérebro. Seu velório foi realizado no Teatro Oficina.
O longa conta com as interpretações de Yara de Novaes, Carol Duarte, Juliana Carneiro da Cunha e Átila Bee. Depois de passar pelo Festival de Sundance, em janeiro deste ano, ‘Malu’ fez sua estreia brasileira no Festival do Rio, no qual recebeu os prêmios de Melhor Longa de Ficção, Roteiro, Atriz (para Novaes) e Atriz Coadjuvante (dividido entre Carneiro e Duarte).
O que disse a crítica 1: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Chamar Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha de coadjuvantes é um desrespeito às atuações, e também ao interesse central de ‘Malu’. Duarte e Carneiro da Cunha são extremos de uma mesma linha, na qual Yara de Novaes é o centro, mas o filme de Pedro Rocha funciona porque entende cada uma dessas mulheres como pessoas reais, e encontra em cada relacionamento o combustível para tratar das diferenças e semelhanças entre as três. O que se perde de uma geração para a outra? O que acontece quando a anterior se decepciona com a geração seguinte, e vice-versa? Na família de Malu, temos as respostas”.
O que disse a crítica 2: Laura Machado do site Cinematório também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “A ficção criada por Pedro Freire como forma de homenagear a história de sua mãe é pessoal e repleta de singularidades. Porém, é também extremamente fácil para o espectador se conectar com a obra e enxergar sua própria vivência naquelas personagens. ‘Malu’ é um extravasamento que escorre do seio familiar e explode diante do mundo. É um retrato ficcional daquilo que é real”.
O que eu achei: "Malu" (2024), primeiro longa de Pedro Freire, é um filme profundamente íntimo e ao mesmo tempo universal, que transforma a experiência pessoal do diretor em matéria cinematográfica de rara sensibilidade. Livremente inspirado na vida de sua mãe, a atriz paulista Malu Rocha, o filme escolhe não fazer uma biografia tradicional, mas sim um recorte emocional: o período em que ela é obrigada a se isolar do mundo por problemas financeiros e já às voltas com os primeiros sinais de uma doença neurodegenerativa que mais tarde seria diagnosticada como Mal de Príon. Freire concentra a narrativa nesse momento de suspensão da vida, quando o tempo parece desacelerar e a existência passa a ser atravessada por perdas, impasses e silêncios. A personagem de Malu, interpretada com impressionante entrega por Yara de Novaes, vive em uma casa inacabada, sem reboco, numa comunidade do Rio de Janeiro. Esse espaço físico funciona como extensão de seu estado emocional: um lugar em permanente construção, instável, precário, mas ainda pulsante de desejo criativo. Ali, ela tenta manter vivo o sonho de transformar sua casa em um centro cultural, insistindo na arte como forma de resistência ao esquecimento e à marginalização. O roteiro evita explicações fáceis ou didatismos sobre essa doença rara, fatal e ainda pouco compreendida, e opta por sugerir seus efeitos por meio de lapsos de memória e mudanças de comportamento. Malu é retratada como uma mulher intensa, impulsiva, por vezes difícil, mas absolutamente magnética. Uma figura que vive no limite entre a lucidez e o excesso, entre o afeto e a explosão. A relação com a mãe conservadora e religiosa, vivida por uma extraordinária Juliana Carneiro da Cunha, revela camadas profundas de afeto, ressentimento e dependência, enquanto a presença da filha Joana, interpretada por Carol Duarte, introduz um contraponto mais jovem, afetivo e observador. Não a toa, o diretor já afirmou que essa personagem é uma amálgama dele próprio com sua meia-irmã Isadora Ferrite (roteirista, assistente de direção e realizadora), o que confere ao filme um tom ainda mais confessional. Chama atenção o cuidado em não transformar a trajetória de Malu em melodrama. Mesmo diante de uma doença devastadora, o filme aposta na contenção, no humor ocasional, na vitalidade contraditória de uma mulher que se recusa a desaparecer em silêncio. Também é significativa a decisão de nunca citar explicitamente os nomes reais de seus ex-maridos, entre eles figuras conhecidas como Zanoni Ferrite e Herson Capri (ambos atores, diretores e produtores teatrais), reforçando o caráter ficcional e subjetivo da obra. Para quem, como eu, guarda apenas uma lembrança vaga de Malu Rocha, o filme funciona como um reencontro tardio, uma espécie de reparação poética. "Malu" não tenta reconstruir uma carreira, mas compreender uma presença. E faz isso com delicadeza, rigor e uma profunda empatia. Ao final o que fica é a impressão de ter assistido a um retrato raro de uma mulher complexa, artista até o fim, capturada com respeito e amor pelo olhar do próprio filho. Um filme tocante, maduro e humano. Grande estreia de Pedro Freire na direção de um longa! Super recomendo.