
Comentário: Gabriel Mascaro (1983) é um cineasta e artista visual brasileiro. Iniciou sua carreira fazendo documentários. Dirigiu “KFZ-1348” (2008, codirigido por Marcelo Pedroso), “Um Lugar ao Sol” (2009) e “Doméstica” (2013). No mesmo ano lançou o curta “A Onda Traz, O Vento Leva”. No ano seguinte lançou seu primeiro filme de ficção, “Ventos de Agosto” (2014) e se tornou mais conhecido após o lançamento de “Boi Neon” (2015). Também realizou uma instalação chamada “Não é Sobre Sapatos” e uma série fotográfica com o título “Desamar”. “O Último Azul” (2025) é o primeiro filme que vejo dele.
Laura Machado da Revista Continente publicou: “O ser humano divide as fases da vida quase como divide o tempo: passado, presente, futuro; infância, adolescência, idade adulta, velhice. Em cada uma dessas etapas, transformações ocorrem ao corpo e à mente dos indivíduos. Muito se fala sobre as descobertas das crianças, das inseguranças dos jovens e das responsabilidades dos adultos, sobre as experiências dos idosos, porém, foram ignoradas por muito tempo. Do que é feita a velhice, afinal? Em ‘O Último Azul’, longa-metragem do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro, a velhice é feita de vida.
‘O Último Azul’ teve sua estreia mundial durante o 75º Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde foi consagrado com o Urso de Prata, além de também voltar para casa com o Prêmio do Júri Ecumênico e o Prêmio do Júri de Leitores do Berliner Morgenpost. No Brasil, o filme teve sua primeira exibição oficial na abertura do Festival de Cinema de Gramado 2025 e, por fim, chegou às salas de cinema (...).
Com a atriz Denise Weinberg no papel da protagonista, o filme nasceu ‘da vontade de contar uma história sobre o direito de uma idosa sonhar’, como explicou Gabriel Mascaro em entrevista exclusiva à Revista Continente. Assim, acolhendo o tema da velhice desde seu primórdio, a narrativa do longa se passa em um Brasil fantástico onde os idosos devem abandonar suas vidas e se encaminharem para a Colônia, local estabelecido pelo Governo para ser casa dos mais velhos até o fim de suas vidas. Diferentemente de muitos ao seu redor, que enxergam a mudança obrigatória como uma espécie de recompensa pelos anos dedicados ao país, Tereza não se entusiasma com a perspectiva de mudança. Uma semana antes de ser levada à Colônia, ela decide que não é mais hora de adiar os desejos e parte em uma jornada para realizar um sonho antigo.
Pelo cenário idílico dos rios que cortam a Amazônia, Tereza encontra o barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro) e a missionária Roberta (Miriam Socarrás), personagens que se somam à beleza das imagens e levam a trama para frente.
Os caminhos d’água presentes na obra, inclusive, são por si só personagens responsáveis pelo desenvolvimento da protagonista. Se, no começo da obra, Tereza parece uma estranha em busca de seu lugar, com o passar do tempo, ela parece cada vez mais certa de si mesma e pertencente ao ambiente de dentro do barco, encarando as paisagens que a rodeiam de forma singular.
‘O Último Azul’ ‘apresenta uma Amazônia ao mesmo tempo mágica e industrial, quase surreal e profundamente política. A história especula sobre um sistema político marcado por um populismo tropical e um fascismo desenvolvimentista, colocando a Amazônia não como um santuário intocado, mas como o epicentro das contradições do planeta’, explica Mascaro.
Para além da simbiose entre ser humano e o meio natural, o filme trata do envelhecer com grande expertise. Se no cinema ainda é raro produções com protagonistas idosos, é ainda mais incomum que os mais velhos estejam em papel de destaque em longas que se comunicam através da ficção científica, distopia e fantasia.
Corpos idosos foram excluídos da conversa artística por muito tempo e mesmo que atualmente essa repressão venha sendo questionada, histórias onde a terceira idade se destaca e representa algo além do que pessoas incapazes ou quase etéreas ainda são raras. Justamente por surgir como um manifesto à possibilidade de idosos seguirem sonhando, a trama de ‘O Último Azul’ é um acalento.
Tereza tem 77 anos na história e não se rende às ordens do Estado. Ela não é alguém de extrema fragilidade, incapaz de viver em sua própria casa, trabalhar e cuidar de si mesma. Ela é um exemplo de mulher que viveu os seus anos dedicada a cuidar da filha de forma autônoma, trabalhando em vários empregos para pagar as contas. Ao chegar à velhice, é a primeira vez que está livre para aproveitar o tempo como bem entender e, durante o filme, Tereza se acostuma cada vez mais com sua emancipação. ‘O Último Azul’ é uma proclamação à liberdade de envelhecer e seguir sonhando”.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “A grandeza do longa-metragem reside nesta capacidade de olhar para o cotidiano com o encantamento de quem testemunha uma grandiosa jornada, e de converter a aventura em si numa espécie de pacificação dos sentidos. Denise Weinberg, magnífica no papel principal, evita os exageros e dispensa a tentação de sublinhar frases ou olhares. Compõe esta paisagem com uma entrega de difícil simplicidade, como poucas vezes se enxerga no cinema. Heroína involuntária de um périplo pelas águas, Tereza foge à condição trágica que a esperaria ao término de qualquer jornada exemplar. Ela insiste em constituir uma exceção”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Sem jamais esquecer sua veia política (presente mais em subtexto do que escancaradamente como em ‘Divino Amor’), Mascaro aponta, por exemplo, a hipocrisia de uma ideologia conservadora que, ao mesmo tempo em que prega a importância da família, não hesita em desmantelá-la ao enviar os idosos para longe – um reflexo de tantos líderes políticos e religiosos que, sempre apontando o dedo na direção de progressistas com a acusação de que estão ‘destruindo valores familiares’, estão constantemente nas capas dos grandes portais envolvidos em denúncias de abuso sexual e atos de violência”.
O que eu achei: Em “O Último Azul” (2025), Gabriel Mascaro constrói um filme sensível e poético, que se destaca pela forma como transforma a trajetória íntima de uma mulher de 77 anos numa reflexão universal sobre liberdade, tempo e desejo. É um filme que encontra beleza nos pequenos gestos e nas histórias de idosos que muitas vezes passam despercebidas. O título carrega uma metáfora central: o 'último azul' remete ao caracol da baba azul, um animal mágico inventado para a narrativa, que deixa um rastro capaz de permitir a quem o utiliza enxergar o futuro. Essa ideia dialoga diretamente com a protagonista e sua busca por uma última chance de viver plenamente, como se, apesar da idade, ainda houvesse tempo para experimentar, desejar e recomeçar. A imagem do azul se torna, assim, símbolo de esperança e de urgência. Mascaro conduz a trama com delicadeza, evitando excessos e permitindo que os momentos se revelem de forma orgânica. Há um cuidado evidente com o tempo da narrativa, que respeita o ritmo dos personagens e valoriza silêncios, olhares e pequenas ações, sugerindo camadas afetivas importantes, especialmente na relação entre duas idosas. Existe ali uma tensão delicada, um afeto que beira o amor, mas que permanece no campo do não dito. Fica a sensação de que faltou um gesto mais explícito - aquele beijo sugerido, mas nunca concretizado - que poderia ter dado ainda mais força emocional ao desfecho. Ainda assim, “O Último Azul” é um trabalho muito bonito e envolvente. Ao misturar elementos de realidade e fabulação, Mascaro cria um espaço onde memória, desejo e imaginação convivem, resultando em um filme que fala sobre envelhecer sem abrir mão da possibilidade de sonhar. Em tempo, por curiosidade fiz uma pesquisa rápida tentando descobrir se haveria parentesco entre o cineasta Gabriel Mascaro e o fotógrafo Cristiano Mascaro, mas tudo indica que não, parece ser apenas uma coincidência de sobrenomes.
Com a atriz Denise Weinberg no papel da protagonista, o filme nasceu ‘da vontade de contar uma história sobre o direito de uma idosa sonhar’, como explicou Gabriel Mascaro em entrevista exclusiva à Revista Continente. Assim, acolhendo o tema da velhice desde seu primórdio, a narrativa do longa se passa em um Brasil fantástico onde os idosos devem abandonar suas vidas e se encaminharem para a Colônia, local estabelecido pelo Governo para ser casa dos mais velhos até o fim de suas vidas. Diferentemente de muitos ao seu redor, que enxergam a mudança obrigatória como uma espécie de recompensa pelos anos dedicados ao país, Tereza não se entusiasma com a perspectiva de mudança. Uma semana antes de ser levada à Colônia, ela decide que não é mais hora de adiar os desejos e parte em uma jornada para realizar um sonho antigo.
Pelo cenário idílico dos rios que cortam a Amazônia, Tereza encontra o barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro) e a missionária Roberta (Miriam Socarrás), personagens que se somam à beleza das imagens e levam a trama para frente.
Os caminhos d’água presentes na obra, inclusive, são por si só personagens responsáveis pelo desenvolvimento da protagonista. Se, no começo da obra, Tereza parece uma estranha em busca de seu lugar, com o passar do tempo, ela parece cada vez mais certa de si mesma e pertencente ao ambiente de dentro do barco, encarando as paisagens que a rodeiam de forma singular.
‘O Último Azul’ ‘apresenta uma Amazônia ao mesmo tempo mágica e industrial, quase surreal e profundamente política. A história especula sobre um sistema político marcado por um populismo tropical e um fascismo desenvolvimentista, colocando a Amazônia não como um santuário intocado, mas como o epicentro das contradições do planeta’, explica Mascaro.
Para além da simbiose entre ser humano e o meio natural, o filme trata do envelhecer com grande expertise. Se no cinema ainda é raro produções com protagonistas idosos, é ainda mais incomum que os mais velhos estejam em papel de destaque em longas que se comunicam através da ficção científica, distopia e fantasia.
Corpos idosos foram excluídos da conversa artística por muito tempo e mesmo que atualmente essa repressão venha sendo questionada, histórias onde a terceira idade se destaca e representa algo além do que pessoas incapazes ou quase etéreas ainda são raras. Justamente por surgir como um manifesto à possibilidade de idosos seguirem sonhando, a trama de ‘O Último Azul’ é um acalento.
Tereza tem 77 anos na história e não se rende às ordens do Estado. Ela não é alguém de extrema fragilidade, incapaz de viver em sua própria casa, trabalhar e cuidar de si mesma. Ela é um exemplo de mulher que viveu os seus anos dedicada a cuidar da filha de forma autônoma, trabalhando em vários empregos para pagar as contas. Ao chegar à velhice, é a primeira vez que está livre para aproveitar o tempo como bem entender e, durante o filme, Tereza se acostuma cada vez mais com sua emancipação. ‘O Último Azul’ é uma proclamação à liberdade de envelhecer e seguir sonhando”.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “A grandeza do longa-metragem reside nesta capacidade de olhar para o cotidiano com o encantamento de quem testemunha uma grandiosa jornada, e de converter a aventura em si numa espécie de pacificação dos sentidos. Denise Weinberg, magnífica no papel principal, evita os exageros e dispensa a tentação de sublinhar frases ou olhares. Compõe esta paisagem com uma entrega de difícil simplicidade, como poucas vezes se enxerga no cinema. Heroína involuntária de um périplo pelas águas, Tereza foge à condição trágica que a esperaria ao término de qualquer jornada exemplar. Ela insiste em constituir uma exceção”.
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “Sem jamais esquecer sua veia política (presente mais em subtexto do que escancaradamente como em ‘Divino Amor’), Mascaro aponta, por exemplo, a hipocrisia de uma ideologia conservadora que, ao mesmo tempo em que prega a importância da família, não hesita em desmantelá-la ao enviar os idosos para longe – um reflexo de tantos líderes políticos e religiosos que, sempre apontando o dedo na direção de progressistas com a acusação de que estão ‘destruindo valores familiares’, estão constantemente nas capas dos grandes portais envolvidos em denúncias de abuso sexual e atos de violência”.
O que eu achei: Em “O Último Azul” (2025), Gabriel Mascaro constrói um filme sensível e poético, que se destaca pela forma como transforma a trajetória íntima de uma mulher de 77 anos numa reflexão universal sobre liberdade, tempo e desejo. É um filme que encontra beleza nos pequenos gestos e nas histórias de idosos que muitas vezes passam despercebidas. O título carrega uma metáfora central: o 'último azul' remete ao caracol da baba azul, um animal mágico inventado para a narrativa, que deixa um rastro capaz de permitir a quem o utiliza enxergar o futuro. Essa ideia dialoga diretamente com a protagonista e sua busca por uma última chance de viver plenamente, como se, apesar da idade, ainda houvesse tempo para experimentar, desejar e recomeçar. A imagem do azul se torna, assim, símbolo de esperança e de urgência. Mascaro conduz a trama com delicadeza, evitando excessos e permitindo que os momentos se revelem de forma orgânica. Há um cuidado evidente com o tempo da narrativa, que respeita o ritmo dos personagens e valoriza silêncios, olhares e pequenas ações, sugerindo camadas afetivas importantes, especialmente na relação entre duas idosas. Existe ali uma tensão delicada, um afeto que beira o amor, mas que permanece no campo do não dito. Fica a sensação de que faltou um gesto mais explícito - aquele beijo sugerido, mas nunca concretizado - que poderia ter dado ainda mais força emocional ao desfecho. Ainda assim, “O Último Azul” é um trabalho muito bonito e envolvente. Ao misturar elementos de realidade e fabulação, Mascaro cria um espaço onde memória, desejo e imaginação convivem, resultando em um filme que fala sobre envelhecer sem abrir mão da possibilidade de sonhar. Em tempo, por curiosidade fiz uma pesquisa rápida tentando descobrir se haveria parentesco entre o cineasta Gabriel Mascaro e o fotógrafo Cristiano Mascaro, mas tudo indica que não, parece ser apenas uma coincidência de sobrenomes.










