
Comentário: Apichatpong Weerasethakul (1970) é um diretor tailandês que faz filmes pouco convencionais. Já vi dele os ótimos "Síndromes e Um Século" (2006) e "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas" (2010); os bons “Mal dos Trópicos” (2004), "Hotel Mekong" (2012) e "Cemitério do Esplendor" (2015), o mediano “Memória” (2021) e o curta “Blue” (2018). Desta vez vou conferir “Ashes” (2012), um curta-metragem de 20 minutos feito com uma câmera LomoKino.
O título, na tradução livre do inglês para o português significa “Cinzas”.
Ronaldo Entler do site Icônicas nos conta que “O cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul (...) retornou ao festival [de Cannes] apresentando fora da mostra competitiva dois novos projetos: o documentário ‘Mekong Hotel’ e o curta ‘Ashes’, (...) este último é o resultado de uma experiência realizada com uma câmera LomoKino, que faz rodar um filme 35mm por meio de uma manivela e que imprime ao trabalho um ar de foto-filme.
Os filmes de Apichatpong são fáceis de ver quando nos rendemos à plasticidade das narrativas, mas são difíceis de entender quando não resistimos à ansiedade de explicar o que vemos. Sobretudo depois do êxito de ‘Tio Boonmee’ em Cannes, seus trabalhos passaram a mobilizar debates intensos que ora reduzem sua obra a uma noção vaga e anacrônica de ‘surrealismo’, ora tentam listar o significado de cada cena e de cada personagem. Há certamente uma medida mais adequada entre a constatação do nonsense e a dicionarização dos símbolos.
Quando comenta suas influências, Apichatpong não é afeito a demonstrações de erudição. Ele assume trabalhar de modo bastante livre com suas memórias, aceita as descontinuidades que elas impõem e não distingue entre aquilo que absorveu da tradição tailandesa e os elementos da cultura de massa: a fotografia, a televisão e o cinema. (...)
Em ‘Ashes’, Apichatpong apenas joga com as sequências de imagens, não chega a construir uma narrativa. O filme é – assim como a memória – uma colagem de cenas: um passeio por uma vila com um cão, uma mulher pintando as unhas, protestos contra o ‘artigo 112’ (da lei que define o crime de ‘Lesa-Majestade’ e que inibe a liberdade de expressão na Tailândia), o cineasta que tenta apreender por meio de desenhos as formas e as cores dos sonhos, os fogos de artifício de uma festividade que criam abstrações (...).
Com a LomoKino, Apichatpong retorna a uma imagem cinematográfica arcaica (...). Essa instância obscura que recebe a qualificação de ‘primitiva’ não representa qualquer simplicidade. Muito pelo contrário, ela é o lugar em que o potencial das coisas pode ser reconhecido de modo mais evidente. Neste novo projeto, a montagem não esconde os saltos que o cinema opera, assim como a ligação de cada foto com a seguinte não esconde o esforço para criar a ilusão de movimento.
(...) Em ‘Asches’, é na escuridão que o cineasta falará da possibilidade de reter a memória de um sonho. Só a penumbra permite enxergar as luzes mais sutis, assim como é o esquecimento que confere um contorno à memória. E Apichatpong Weerasethakul é o nome impronunciável de um diretor cuja assinatura se torna cada vez mais legível nas imagens”.
O que disse a crítica 1: Dennis Grunes gostou. Disse em seu blog tratar-se de um “filme brilhante que é como um olhar para o passado: o homem com o cão, um cineasta, voltou sua atenção para desenhar os edifícios de sua cidade natal, Khon Kaen, como ele se lembra deles. (Este personagem e Apichatpong são da mesma cidade natal). Ele nos diz: ‘Eu continuei desenhando e olhando para trás’. Ele também nos diz que estamos assistindo a um sonho - se você preferir, um sonho do passado”.
O que disse a crítica 2: Axl Flores do site Fotogenia Podcast também gostou. Escreveu: “Poderíamos acusar Apichatpong de trair sua experimentação inicial com narrativas de sonhos, optando pela narrativa em vez do experimental, mas vale a pena nos perguntarmos o que lembramos depois de ter sonhado e como achamos que lembramos. Talvez toda a agitação inicial de ‘Ashes’ não esteja longe disso, e o fato é que, acima de tudo, o filme parece ser esse esforço reconstrutivo para resgatar uma imagem mental ou onírica do esquecimento. Se as cinzas são um vestígio do que estava vivo, as imagens podem ser um vestígio do que foi sonhado”.
O que eu achei: Juntar uma câmera cinematográfica portátil Lomo, movida a manivela, com o estilo de filmar do Apichatpong é como juntar arroz com feijão: uma coisa foi feita para a outra. As imagens, todas com aquela pegada onírica, nos mostram bichos, pessoas andando, carros passando na avenida, abstrações, folhagens, sombras geradas pelo sol escaldante, cartazes de protesto, fogos de artifício... até a Tilda Swinton aparece. São imagens soltas, oras em P&B, oras coloridas, oras sobrepostas, oras com a tela dividida em partes, num ponto de vista subjetivo que se organiza aleatoriamente para falar de memória. É experimentalismo na veia.
Ronaldo Entler do site Icônicas nos conta que “O cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul (...) retornou ao festival [de Cannes] apresentando fora da mostra competitiva dois novos projetos: o documentário ‘Mekong Hotel’ e o curta ‘Ashes’, (...) este último é o resultado de uma experiência realizada com uma câmera LomoKino, que faz rodar um filme 35mm por meio de uma manivela e que imprime ao trabalho um ar de foto-filme.
Os filmes de Apichatpong são fáceis de ver quando nos rendemos à plasticidade das narrativas, mas são difíceis de entender quando não resistimos à ansiedade de explicar o que vemos. Sobretudo depois do êxito de ‘Tio Boonmee’ em Cannes, seus trabalhos passaram a mobilizar debates intensos que ora reduzem sua obra a uma noção vaga e anacrônica de ‘surrealismo’, ora tentam listar o significado de cada cena e de cada personagem. Há certamente uma medida mais adequada entre a constatação do nonsense e a dicionarização dos símbolos.
Quando comenta suas influências, Apichatpong não é afeito a demonstrações de erudição. Ele assume trabalhar de modo bastante livre com suas memórias, aceita as descontinuidades que elas impõem e não distingue entre aquilo que absorveu da tradição tailandesa e os elementos da cultura de massa: a fotografia, a televisão e o cinema. (...)
Em ‘Ashes’, Apichatpong apenas joga com as sequências de imagens, não chega a construir uma narrativa. O filme é – assim como a memória – uma colagem de cenas: um passeio por uma vila com um cão, uma mulher pintando as unhas, protestos contra o ‘artigo 112’ (da lei que define o crime de ‘Lesa-Majestade’ e que inibe a liberdade de expressão na Tailândia), o cineasta que tenta apreender por meio de desenhos as formas e as cores dos sonhos, os fogos de artifício de uma festividade que criam abstrações (...).
Com a LomoKino, Apichatpong retorna a uma imagem cinematográfica arcaica (...). Essa instância obscura que recebe a qualificação de ‘primitiva’ não representa qualquer simplicidade. Muito pelo contrário, ela é o lugar em que o potencial das coisas pode ser reconhecido de modo mais evidente. Neste novo projeto, a montagem não esconde os saltos que o cinema opera, assim como a ligação de cada foto com a seguinte não esconde o esforço para criar a ilusão de movimento.
(...) Em ‘Asches’, é na escuridão que o cineasta falará da possibilidade de reter a memória de um sonho. Só a penumbra permite enxergar as luzes mais sutis, assim como é o esquecimento que confere um contorno à memória. E Apichatpong Weerasethakul é o nome impronunciável de um diretor cuja assinatura se torna cada vez mais legível nas imagens”.
O que disse a crítica 1: Dennis Grunes gostou. Disse em seu blog tratar-se de um “filme brilhante que é como um olhar para o passado: o homem com o cão, um cineasta, voltou sua atenção para desenhar os edifícios de sua cidade natal, Khon Kaen, como ele se lembra deles. (Este personagem e Apichatpong são da mesma cidade natal). Ele nos diz: ‘Eu continuei desenhando e olhando para trás’. Ele também nos diz que estamos assistindo a um sonho - se você preferir, um sonho do passado”.
O que disse a crítica 2: Axl Flores do site Fotogenia Podcast também gostou. Escreveu: “Poderíamos acusar Apichatpong de trair sua experimentação inicial com narrativas de sonhos, optando pela narrativa em vez do experimental, mas vale a pena nos perguntarmos o que lembramos depois de ter sonhado e como achamos que lembramos. Talvez toda a agitação inicial de ‘Ashes’ não esteja longe disso, e o fato é que, acima de tudo, o filme parece ser esse esforço reconstrutivo para resgatar uma imagem mental ou onírica do esquecimento. Se as cinzas são um vestígio do que estava vivo, as imagens podem ser um vestígio do que foi sonhado”.
O que eu achei: Juntar uma câmera cinematográfica portátil Lomo, movida a manivela, com o estilo de filmar do Apichatpong é como juntar arroz com feijão: uma coisa foi feita para a outra. As imagens, todas com aquela pegada onírica, nos mostram bichos, pessoas andando, carros passando na avenida, abstrações, folhagens, sombras geradas pelo sol escaldante, cartazes de protesto, fogos de artifício... até a Tilda Swinton aparece. São imagens soltas, oras em P&B, oras coloridas, oras sobrepostas, oras com a tela dividida em partes, num ponto de vista subjetivo que se organiza aleatoriamente para falar de memória. É experimentalismo na veia.