Sinopse: Marcel Marx (André Wilms) é um homem que vive como engraxate nas proximidades do porto e, com o pouco dinheiro que ganha, tenta sustentar sua casa. Vivendo com dificuldades, ele vê sua rotina mudar quando sua esposa (Kati Outinem) subitamente adoece e um garoto africano (Blondin Miguel) chega ao país dentro de um cargueiro. Com o auxílio de alguns vizinhos, resolve esconder o menino e encontrar sua família, enquanto tenta despistar o detetive encarregado de localizar o imigrante ilegal.
Comentário: Aki Kaurismäki (1957) é um roteirista, produtor de cinema e cineasta finlandês. "O Porto" (2011) é o primeiro filme que vejo dele.
Segundo Marcelo Hessel do site Omelete, "a questão da imigração ilegal na Europa não deixa de ter um componente estético. Árabes, africanos, caribenhos e ciganos do Leste carregam no rosto os traços fortes de suas culturas, com quem a Europa 'branca' teme a miscigenação. A pureza racial é um dos delírios inconfessos desses ex-impérios em negação; ninguém tem coragem de olhar nos olhos dos outros e aceitar a diferença.
'O Porto' (...), seu segundo filme falado em francês depois de 'La Vie de Bohème', de 1992, passa-se em Le Havre, na França. É mais uma humilde região portuária como a Helsinque de Kaurismaki, populada por operários beberrões, cães largados e mulheres de boa vontade, seu tipo favorito de personagens e de cenário. (...)
O estilo de filmar de Kaurismaki, sempre frontal, como se os atores estivessem posando para um retrato 3x4, reforça ao mesmo tempo o desamparo e o senso de coletividade. É uma tradição de proscênio, de teatro, que vem do cinema mudo (aliás, nestes tempos de 'O Artista', vale procurar o filme mudo e preto-e-branco de Kaurismaki, 'Juha', de 1999, que é muito melhor que o vencedor do Oscar) e que casa bem com a perplexidade que as situações de 'O Porto' provocam. Essa frontalidade é o que define o humanismo de Kaurismaki, e é esse ‘olhar nos olhos’ - enxergar o outro diante do próprio nariz - que torna 'O Porto' um filme tão direto e claro no tratamento dessa questão europeia dos imigrantes, um filme também sobre a estética da diferença".
O que eu achei: “O Porto” (2011) é um filme pequeno em escala, mas cheio de humanidade, daqueles que conquistam mais pela delicadeza do que pelo impacto. Ambientado numa cidade portuária francesa e centrado na figura simples e generosa de Marcel Marx, um engraxate que decide ajudar um jovem imigrante africano em situação irregular, o longa reafirma um dos temas mais caros ao diretor: a solidariedade entre os marginalizados. Com sua estética minimalista, atuações contidas e diálogos econômicos, Kaurismäki constrói uma fábula social que, embora trate de temas densos como imigração e exclusão, opta por uma abordagem suave, quase poética, que evita o melodrama e encontra beleza na simplicidade. Mesmo sem ser um de seus filmes mais memoráveis, “O Porto” é inegavelmente bom. Há algo de reconfortante em sua narrativa linear, no humor seco e na ternura que permeia os gestos dos personagens. A fotografia de tons opacos, a trilha discreta e a direção precisa ajudam a criar uma atmosfera atemporal e meio suspensa da realidade, marca registrada do cineasta finlandês. É um filme no qual sobra honestidade, sensibilidade e um olhar profundamente humano sobre aqueles que vivem à margem.
