5.5.14

"Um Alguém Apaixonado" - Abbas Kiarostami (França/Japão, 2012)

Sinopse: Akiko (Rin Takanashi) ganha a vida como prostituta em Tóquio, enquanto estuda sociologia, e esconde seu trabalho do namorado (Ryo Kase). Uma noite, visita um viúvo (Tadashi Okuno) que se torna mais do que um cliente, servindo como seu único apoio durante os longos dias.
Comentário: Abbas Kiarostami (1940-2016) foi um cineasta, roteirista, produtor, poeta e fotógrafo franco-iraniano. Obteve diversos prêmios internacionais, dentre os quais se destacam a Palma de Ouro de 1997 e o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1999. Assisti dele o bom "Cópia Fiel" (2010). Desta vez vou conferir "Um Alguém Apaixonado" (2012).
Marcelo Hessel do site Omelete nos diz que "O cinema só tem a ganhar se Abbas Kiarostami, como Woody Allen, decidir transformar num hábito a ideia de rodar filmes em lugares distintos. O mais importante cineasta do Irã saiu do seu país e foi ao Velho Mundo fazer 'Cópia Fiel' (2010), e agora roda 'Um Alguém Apaixonado' (Like Someone in Love) em Tóquio. Os dois filmes formam um díptico interessante porque representam opostos: o peso histórico da Europa contra o motor da modernidade efêmera na capital japonesa.
Se 'Cópia Fiel', com suas referências ao passado, era um filme de muitos tempos em um, 'Um Alguém Apaixonado' é um filme de muitos espaços em um. Sai a carga da história, representada no flanar, no pedestrianismo, e entra o imediatismo de viver tudo agora, acelerado pelos muitos deslocamentos de carros ao longo do filme. Kiarostami não chega ao ponto de filmar 'Um Alguém Apaixonado' inteiro dentro de um carro, como já fez no Irã em 'Dez', mas foi quase.
Os dois cenários que servem de começo e fim para essa história de deslocamentos são um bar e um apartamento. No bar, a acompanhante de luxo Akiko (Rin Takanashi) aceita contrariada quando seu cafetão manda ela pegar um táxi até um endereço a uma hora de Tóquio, o apartamento de um velho professor e tradutor, Takashi (Tadashi Okuno). Presume-se que Takashi é o tal personagem que age 'como alguém apaixonado' do título, porque inicialmente ele só quer aproveitar a companhia de Akiko com um tranquilo jantar romântico em seu apê, e rapidamente sua vida está tão desarranjada quanto os corações dos amantes.
A comparação com Woody Allen vem ao caso porque 'Um Alguém Apaixonado' começa dramático mas se desenrola como uma comédia de erros romântica. E nunca uma personagem foi tão portadora de malentendidos quanto Akiko. Kiarostami faz um filme em que os espaços se confundem porque a cacofonia do bar no início - em que pessoas trocam de lugares para manter conversas paralelas - depois se transfere para o apartamento do velho, desde o momento em que o telefone toca quanto Akiko chega. Logo Takashi estará lidando com o barulho das aulas de inglês e com a vizinha curiosa (cujo mundo restrito não poderia ser melhor representado do que com a janelinha por onde ela espia a vida dos outros).
É como se Akiko, a garota de programa, que pela própria definição da sua profissão é uma pessoa eternamente em trânsito existencial, carregasse consigo as atribulações do mundo - e os reflexos da janela do carro no rosto da simpática Rin Takanashi, durante o passeio à noite na cidade, dão plenamente conta disso. E é com esse descompromisso panorâmico, por vezes hilariante e outras bastante triste, que Abbas Kiarostami encontra uma forma no Japão para falar sobre a sufocante onipresença da modernidade".
O que eu achei: Ser cineasta no Irã me parece ser uma tarefa cada vez mais complexa. Durante quase 40 anos, Abbas Kiarostami construiu uma filmografia que desafiava as convenções narrativas e afrontava, com sutileza e inteligência, os limites impostos pelo regime iraniano. Mas chegou um momento em que o cineasta precisou se radicar na França - país que, por muitos anos, o ajudou a produzir suas obras - para continuar a filmar sem as amarras da censura. "Um Alguém Apaixonado" (2012) nasceu nesse contexto de deslocamento e foi rodado em Tóquio, com elenco integralmente japonês e diálogos totalmente em japonês, um idioma que Kiarostami não dominava. O resultado é um filme que soa, ao mesmo tempo, estranho e fascinante dentro de sua obra. Aqui, não há grandes clímax, nem viradas dramáticas surpreendentes. A narrativa parece recusar soluções fáceis, deixando a sensação de que acompanhamos apenas um fragmento da vida desses personagens, um pedaço de história que, ao terminar, continua a existir fora da tela. Diferente de outros trabalhos de Kiarostami, este não é tão meticulosamente arquitetado. É mais aberto, mais próximo do fluxo errático da vida real, onde os encontros casuais e os mal-entendidos nem sempre conduzem a revelações profundas ou encerramentos catárticos. Há diálogos repletos de silêncios, longas observações através de janelas e reflexos, além de um olhar curioso, quase voyeurístico, para relações humanas frágeis e mal resolvidas. O resultado pode desconcertar quem espera uma narrativa tradicional, mas revela justamente o interesse de Kiarostami por tudo o que escapa ao controle: a comunicação truncada, os gestos interrompidos, o acaso que parece reger o destino. "Um Alguém Apaixonado" carrega em si o gosto pelo enigma, pela simplicidade enganosa e pela vida como ela é: cheia de começos que não levam a finais claros.