22.3.14

"Aquiles e a Tartaruga" - Takeshi Kitano (Japão, 2008)

Sinopse: Desde criança, Machisu (Takeshi Kitano), filho de um rico colecionador, sonha em ser pintor. Obstinado, mas sem talento algum, o menino passa os dias pintando. Quando o pai morre, Machisu trabalha duro para entrar em uma escola de arte, onde conhece gente como ele e recebe suas primeiras críticas negativas. No amor de Sachiko (Kanako Higuchi), encontra força para seguir em frente. Casa, tem uma filha e continua pintando com a ajuda da esposa. Já velho, Machisu ainda não conseguiu vender um quadro, mas suas tentativas de obter reconhecimento só se intensificam.
Comentário: Segundo Fábio Andrade do site Cinética, "Para os que acompanharam sua jornada desenfreada pelo túnel da criação que eram 'Takeshis’' e 'Glória ao Cineasta', será possível acreditar que Takeshi Kitano tenha saído, ao fim, ileso de todo aquele processo? Seria ele capaz de retornar à dramaturgia clássica sem um traço de ironia; retomando todas as convenções implodidas e expostas nos filmes anteriores sem perceber que, dela, só restaram os cacos? Existiria recuperação possível depois de tão intensa desconstrução artística? Aos poucos, as tintas do melodrama vão secando, e começamos a perceber os borrões que formam as imagens: apesar do aparente apego ao figurativo, estamos, de fato, diante do terceiro manifesto de loucura de Takeshi Kitano. A grande diferença é que enquanto 'Takeshis’' e 'Glória ao Cineasta' eram filmes sobre a criação de filmes que traziam para a própria imagem a sua inquietação (...) 'Aquiles e a Tartaruga' traz ao plano narrativo a uma dúvida muito anterior: por que produzir arte? Não seria a insistência artística um mero ato de teimosia de alguém que, um dia, fora convencido de que possuía um dom; um sonho que sequer era seu? Se antes era a imagem quem questionava, agora Kitano retornará ao discurso pré-imagético como questão. À criação, enfim. Percebido isso, 'Aquiles e a Tartaruga' acaba se revelando o mais metalinguístico de todos os filmes de Takeshi Kitano. (...) Fruto de um artista ligado, sobretudo, à produção de arte popular no Japão (o primeiro ofício de Takeshi Kitano não é o de diretor, mas sim o de comediante, sob a alcunha de Beat Takeshi), não seria 'Aquiles e a Tartaruga' a manifestação de um incômodo diante de sua posição como realizador de grife; como artista restrito à crítica e ao público dos festivais, com produções vendidas para olhos desinformados que compram apenas a retórica dos carimbos que aprovam sua relevância artística no mundo?". Talvez esteja aí a prova maior de que o personagem é um alter-ego do diretor: a obsessão com a morte e com a arte de Machisu é também a obsessão de Kitano.