2.6.13

"Cópia Fiel" - Abbas Kiarostami (Bélgica/França/Itália, 2010)

Sinopse: O escritor de meia-idade James Miller (William Shimell) vai à Itália para promover uma palestra e receber um prêmio pelo seu mais recente livro, “Copia Conforme”. Na viagem, ele se encontra com uma mulher (Juliette Binoche), dona de uma galeria de arte. Juntos, eles viajam pela região da Toscana.
Comentário: Abbas Kiarostami (1940-2016) foi um cineasta, roteirista, produtor, poeta e fotógrafo franco-iraniano. Obteve diversos prêmios internacionais, dentre os quais se destacam a Palma de Ouro de 1997 e o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1999. "Cópia Fiel" (2010) é o primeiro filme que vejo dele.
Na trama, o escritor de meia-idade James Miller vai à Itália para promover uma palestra e receber um prêmio pelo seu mais recente livro, “Copia Conforme”. Na viagem, ele se encontra com uma mulher (Juliette Binoche) dona de uma galeria de arte. A princípio os diálogos indicam tratar-se de de dois profissionais que pouco se conhecem, mas ao longo da película eles passam a discutir seu casamento que já dura mais de 15 anos.
Segundo nos conta Thaís Novais de Curtis no texto "A Potência do Falso na Marca", o livro do personagem James Miller (interpretado pelo ator William Shimell) "tem como tema a arte e seus desdobramentos de valores na sociedade. Durante sua apresentação, James afirma que a intenção do livro era a de mostrar que uma cópia tem tanta importância quanto o original, uma vez que a cópia remete ao original e atesta seu valor.
O filme cita casos através da história, como o exemplo dos romanos que vendiam cópias de artefatos egípcios de prata ou o caso de Lorenzo Di Medici que instruíra Michelangelo a esculpir uma estátua de Cupido com características antigas para ser vendida a um preço melhor. Em outras produções, Michelangelo igualmente é acusado de esfumaçar obras para envelhecê- las. Kiarostami poderia também ter citado o caso de Rembrandt, que constituiu uma equipe de aprendizes à sua volta para confecção de obras seguindo seu estilo, as quais ele assinava para que obtivessem valor de venda no mercado. 
Durante a tarde de um domingo, em uma visita a um museu da Toscana, Juliete Binoche, no papel de Elle, uma francesa, suposta fã do escritor e dona de uma galeria de arte em Arezzo, apresenta a James a réplica de uma obra de arte cuja autenticidade só foi questionada depois da 2ª Guerra Mundial. Esse questionamento se deu ao descobrirem que a peça original encontrava-se na realidade em Nápoles, e que a versão vista pelas personagens fora feita por um falsário para trazer prestígio à Toscana. 
Na discussão que se segue, James expõe seu ponto de vista, de que nem o original pode ser considerado genuíno nesse caso, já que a originalidade dessa obra encontra-se na beleza da moça retratada. Para ele, é indiferente que se diga aos visitantes do museu qual das obras é falsa ou verdadeira, pois até a réplica com o tempo adquiriu ares de prestígio e autenticidade, levando em consideração sua fidelidade de reprodução e a percepção dos que a apreciavam.
A partir desse momento do filme, os próprios personagens começam a contracenar dentro de outra lógica de representação. A discussão que girava em torno da questão do falso e verdadeiro na arte passa a ser discutida dentro da realidade dos personagens. Uma relação que era até então entre fã e escritor, passa a se desenhar na forma de ex-marido e mulher quando uma senhora em um café os julga um casal e Elle não desmente a suposição.
O que se segue é o desenrolar de uma história na qual o espectador já não consegue distinguir entre realidade ficcional e representação entre os personagens dentro da ficção. O tom das conversas, os lugares visitados e o clima entre James e Elle nos induzem a acreditar que vemos atores representando atores na película. E a realidade ou o tema central, a originalidade do que vemos muda de sentido e passa a ter outra percepção aos nossos olhos. Se falsa ou verdadeira, a encenação nos prende, na intenção de buscar entendê-la ao final".
O que eu achei: Interessante como este filme trata, direta ou indiretamente, da questão da cópia na arte, algo que o advento da fotografia no mundo nos trouxe, principalmente quando surgiu o negativo fotográfico que passou a propiciar muitas cópias da mesma imagem. Curtis, no texto acima citado, nos lembra que "no ensaio de Walter Benjamin (1961), a reprodutibilidade técnica da arte é percebida como uma forma de democratização do encontro da obra com quem a apreende, em contrapartida aos pensadores da Escola de Frankfurt que caracterizam tal reprodução como simples cópias para fins mercadológicos. Há que se diferenciar a prática de reproduzir do lucro que se obtém com seu resultado. Enquanto um funciona como procedimento artístico, o outro adquire ares de massificação. Já quando aponta a questão da autenticidade, Benjamin afirma que mesmo na cópia mais perfeita, esse conceito se mostra ausente, pelo fato de não ser reprodutível e por estar relacionado ao tempo. Quando falamos em autenticidade, ela pode estar relacionada à autoria, à comprovação de origem, à veracidade daquilo que está diante de si. No entanto, a arte em sua essência já se constitui como reprodução, e não como criação, desse modo a autenticidade da arte é percebida no autor, naquele que 'produz' ou reproduz uma ideia. É como se a reprodução da obra de arte fosse a responsável pela atualização constante da mesma". O filme - complexo na sua estrutura - migra da arte para os relacionamentos, levantando o seguinte questionamento: qual a diferença deste casal para outros juntos há anos? Ao final percebe-se que o longa é puro suco de Kiarostami, um diretor que invariavelmente busca embaralhar realidade e ficção e que aqui acrescenta uma nova camada ao questionar o valor de um original e de uma cópia. Fica a reflexão. Boa pedida.