Sinopse: Em busca de conhecimento, fama e prazeres da carne, o cientista Heinrich Fausto (Johannes Zeiler) faz um pacto com um demoníaco agiota, pagando preço alto – a própria alma (ou consciência) – em troca.
Comentário: Aleksandr Sokurov (1951) é um cineasta russo. Assisti dele a obra-prima "Arca Russa" (2002) e o ótimo "Moloch" (1999). Desta vez vou conferir "Fausto" (2011).
Segundo Alvaro Machado da Revista BRAVO!, "desde o final dos anos 90, quando anunciou sua 'tetralogia do poder', o diretor russo Aleksandr Sokurov vem gestando o teorema cinematográfico que conclui agora com 'Fausto' e cujos primeiros filmes trataram de Adolf Hitler ('Moloch', 1999), Lênin ('Taurus', 2001) e o imperador Hirohito ('O Sol', 2005).
A produção, ganhadora do troféu máximo do Festival de Veneza em 2011, é uma adaptação do conhecido drama teatral do alemão J. W. Goethe (1749-1832), que por sua vez retrabalhou lendas medievais e a peça 'A Trágica História do Doutor Fausto' (1592), do inglês Christopher Marlowe, entre outras fontes. (...)
Embora fiel à peça em linhas gerais, Sokurov preferiu sublinhar o discurso visionário do autor sobre os destinos da ciência e da filosofia ocidentais. Ao diretor interessou, sobretudo, apontar que o cientificismo nascido algumas décadas após a época romântica na qual viveu Goethe é, hoje, o poder acima de todos e que seus artífices endossaram o pacto infernal que permitiu os horrores do século 20.
Nas entrelinhas, o roteiro lembra que, ao partilhar sem questionamento os supostos benefícios dessa ciência, o homem contemporâneo entrega a alma ao diabo por procuração. Os personagens históricos que inspiraram a tetralogia de Sokurov prometeram o bem da humanidade, mas desencadearam forças que se revelaram destrutivas. 'As respostas que deram ao século passado estavam incorretas, e Goethe previu tudo isso', sintetizou o diretor à imprensa russa.
Fiel ao seu gosto pelo classicismo, ele manteve a ambientação da fábula moral nos anos 1830, que assistiram à morte de Goethe. Reescreveu amplamente os diálogos, porém, em parceria com o roteirista Iúri Arabóv. Também foram criados novos personagens - como a mulher de Mefistófeles e o pai de Fausto. No mais, a erudição do cineasta em história da pintura, além de seu conhecido refinamento na construção cenográfica e fotográfica, contribui para alçar de algum modo essa versão às alturas da obra-prima literária original. (...)
Ainda que os diálogos em torno de categorias ontológicas soem muitas vezes enigmáticos, as imagens falam alto. Artista sem concessões, Aleksandr Sokurov é, definitivamente, uma alma complexa, difícil de classificar".
O que eu achei: "Fausto" (2011) é uma obra que impressiona pela ousadia estética e pela forma singular com que revisita o clássico mito literário. Longe de seguir uma narrativa convencional, o filme mergulha em atmosferas sombrias, diálogos filosóficos e imagens que parecem saídas de uma pintura expressionista. A câmera inquieta e os enquadramentos distorcidos criam um universo visualmente hipnótico, que dá ao espectador a sensação de estar dentro de um sonho ou de um delírio onde tudo é intenso e profundamente simbólico. A interpretação dos atores, marcada por uma teatralidade contida e ao mesmo tempo visceral, combina perfeitamente com a proposta de Sokurov. Aqui, Fausto não é apenas um personagem atormentado pela sede de conhecimento e poder, mas também um homem perdido em um mundo que parece esmagá-lo com sua densidade moral e existencial. O diretor constrói esse retrato sem pressa, permitindo que cada cena tenha tempo para respirar e para revelar sua complexidade. O resultado é um filme de beleza perturbadora, em que forma e conteúdo se fundem para explorar temas universais como ambição, desejo e corrupção da alma. "Fausto" é ao mesmo tempo grandioso e intimista, erudito e visceral, confirmando a habilidade de Sokurov em transformar o cinema em uma experiência estética e intelectual de altíssimo nível.
O que eu achei: "Fausto" (2011) é uma obra que impressiona pela ousadia estética e pela forma singular com que revisita o clássico mito literário. Longe de seguir uma narrativa convencional, o filme mergulha em atmosferas sombrias, diálogos filosóficos e imagens que parecem saídas de uma pintura expressionista. A câmera inquieta e os enquadramentos distorcidos criam um universo visualmente hipnótico, que dá ao espectador a sensação de estar dentro de um sonho ou de um delírio onde tudo é intenso e profundamente simbólico. A interpretação dos atores, marcada por uma teatralidade contida e ao mesmo tempo visceral, combina perfeitamente com a proposta de Sokurov. Aqui, Fausto não é apenas um personagem atormentado pela sede de conhecimento e poder, mas também um homem perdido em um mundo que parece esmagá-lo com sua densidade moral e existencial. O diretor constrói esse retrato sem pressa, permitindo que cada cena tenha tempo para respirar e para revelar sua complexidade. O resultado é um filme de beleza perturbadora, em que forma e conteúdo se fundem para explorar temas universais como ambição, desejo e corrupção da alma. "Fausto" é ao mesmo tempo grandioso e intimista, erudito e visceral, confirmando a habilidade de Sokurov em transformar o cinema em uma experiência estética e intelectual de altíssimo nível.
