13.2.12

"Melancolia" - Lars von Trier (Dinamarca/França/Alemanha/Itália/Suécia, 2011)

Sinopse: Um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra, o que resultaria em sua destruição por completo. Neste contexto acontecem as duas partes do filme. Na parte 1, intitulada "Justine", Justine (Kirsten Dunst) está prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard). Ela recebe a ajuda de sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg), que juntamente com seu marido John (Kiefer Sutherland) realiza uma festa suntuosa para a comemoração. Na parte 2, intitulada "Claire", Justine vai passar alguns dias na casa da irmã enquanto a catástrofe está prestes a acontecer.
Comentário: Lars von Trier (1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios. Conhecido por ser provocador nas entrevistas, os comentários antissemitas de von Trier durante uma coletiva de imprensa em Cannes causaram uma controvérsia significativa na mídia, levando o festival a declará-lo como "persona non grata" e bani-lo do festival por um ano. Na sequência, o diretor divulgou uma desculpa formal informando que não era simpatizante do nazismo. Assisti dele a obra-prima "Dogville" (2003) e os ótimos "Manderlay" (2005) e "Anticristo" (2009). Desta vez vou conferir "Melancolia" (2011).
Marcelo Sobrinho do site Plano Crítico publicou: "O cineasta dinamarquês demonstra asco pela crença inabalável de que progredimos enquanto humanidade. Para ele, todas as promessas de salvação e de progresso são vazias. (...) 
Em 'Melancolia', a Natureza é insuperável. Esse é o veneno que Lars von Trier inocula em seu filme e, embora suas ideias não sejam definitivas ou incontestáveis, ao menos são bastante eficientes em evitar uma percepção morna da existência.
Eis aí um paradoxo interessante – a morbidez venenosa de Justine é também um poderoso antídoto contra o abafamento de nossa percepção frente ao mundo e ao mal que ele carrega.
Lars von Trier pode ser pretensioso, arrogante e narcísico. Mas o tom grandiloquente do prólogo de 'Melancolia', tão arriscado para iniciar um filme, se confirma como ponto de partida de uma obra verdadeiramente arrebatadora.
Dessa vez, seu filme não frustra expectativas. A obviedade de uma ou outra metáfora é irrelevante diante da força avassaladora do todo. A melhor e mais poderosa escatologia do vazio que o cinema já viu e verá em muitos anos".
O que eu achei: "Melancolia" (2011) é uma experiência sensorial e emocional que se impõe como uma verdadeira obra-prima. Estruturado em dois movimentos, o longa acompanha as irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg) enquanto um planeta em rota de colisão com a Terra serve como metáfora e catalisador de estados psíquicos profundamente distintos. Desde o prólogo, com suas imagens em câmera lenta de beleza quase pictórica, von Trier estabelece um tom hipnótico. A fotografia, aliada ao uso da música de Richard Wagner, cria uma atmosfera de inevitabilidade e fascínio diante do fim. Cada quadro parece pensado como uma pintura em movimento, traduzindo visualmente o estado melancólico que dá nome ao filme. O que torna "Melancolia", a meu ver, extraordinário é a maneira como o apocalipse externo dialoga com o colapso interno. Justine, mergulhada em depressão, encontra uma estranha serenidade diante do fim iminente, enquanto Claire representa o desespero crescente de quem tenta manter o controle. Essa inversão de expectativas é conduzida com uma precisão emocional impressionante. As atuações são fundamentais: Kirsten Dunst entrega uma performance magnética, que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes, enquanto Charlotte Gainsbourg oferece um contraponto igualmente potente. Lars von Trier, mais uma vez, provoca e confronta, mas aqui há também uma dimensão de beleza e contemplação que eleva o filme a outro patamar. O resultado é devastador e sublime. "Melancolia" não apenas aborda o fim do mundo, ele transforma essa ideia em poesia visual e reflexão existencial, consolidando-se como uma das grandes obras do cinema contemporâneo. Imperdível.