23.4.11

"A Pele" - Steven Shainberg (EUA, 2006)

Sinopse: Diane Arbus (Nicole Kidman) é filha de pais ricos que fabricam e vendem casacos de pele. Ela é casada com um fotógrafo e tem duas filhas pequenas. Ela trabalha como assistente e produtora do marido. Um dia, muda-se para o edifício onde ela reside um homem (Robert Downey Jr.) portador de tricotomia, uma disfunção caracterizada pelo excesso de pelos em todo o corpo. Ela se apaixona por ele e pensa em fotografá-lo.
Comentário: Segundo Marcus Mello do site Cinética, "pouco conhecida no Brasil, a fotógrafa Diane Arbus (1923-1971) é considerada uma das maiores artistas norte-americanas do século XX. Sua obra influenciou cineastas como David Lynch e David Cronenberg e inspirou um dos ensaios de Susan Sontag no clássico 'Sobre Fotografia' (1977). Sontag dedica um capítulo de seu livro a Arbus, cuja retrospectiva organizada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York em 1972 foi a primeira exposição individual de um fotógrafo a atrair multidões, fazendo formar filas gigantescas em frente ao museu. Assim sendo, não causou surpresa a verdadeira disputa em Hollywood após o lançamento da exaustiva biografia da artista, escrita por Patricia Bosworth, em 1984. Disputa que se estendeu por 20 anos, envolvendo diversas atrizes (Diane Keaton, Meg Ryan, Diane Ladd, Barbra Streisand, Samantha Morton) e diretores (Luc Besson, Diane Kurys, Doris Dörrie), todos interessados em levar ao cinema a atormentada vida dessa artista genial, que interrompeu sua carreira em 1971, ao cometer suicídio. Infelizmente, a briga em torno de Arbus chega ao fim de forma melancólica, com a estreia de "A Pele", de Steven Shainberg, com Nicole Kidman à frente do elenco. Poucas vezes um projeto cinematográfico tão longamente alentado atingiu resultado tão pífio. O diretor Shainberg vinha de um longa anterior muito interessante ('Secretária', 2002), e Nicole Kidman já se revelara há tempos uma atriz incomum, com uma carreira marcada por escolhas arriscadas, que a levaram a trabalhar com Gus Van Sant, Stanley Kubrick e Lars Von Trier (e, logo em seguida, ao Oscar, por sua interpretação de outra suicida célebre, a escritora Virginia Woolf). O problema central de 'A Pele' está em seu roteiro, que simplifica e esvazia a rica trajetória de Arbus de maneira que ultrapassa os limites do desrespeito (...). Amparada no fato de ter criado 'um retrato imaginário de Diane Arbus', a roteirista Erin Cressida Wilson transformou Arbus numa jovem burguesa que se liberta de um casamento tedioso a partir do relacionamento com um vizinho coberto de pelos (Robert Downey Jr., reencarnando o Chewbacca de 'Guerra nas Estrelas'). Detalhe importante: o pai de Diane, um de seus opressores, é um magnata da indústria de peles. Deu para perceber o subtexto psicanalítico, não? 'Mas e a fotografia, onde fica?', perguntarão alguns. Por incrível que pareça, no roteiro de Wilson a arte de Arbus está fora de questão, resumindo-se tudo a uma espécie de casamento entre 'Madame Bovary' e 'A Bela e a Fera'. Em se tratando de um filme sobre uma artista que se celebrizou justamente fotografando 'anomalias' (anões, travestis, gigantes, siameses, aleijões, mongolóides), surpreende que o roteiro despreze, por exemplo, um dos episódios decisivos na carreira de Arbus, sua descoberta do filme 'Freaks', de Tod Browning. (...) A insatisfação diante de 'A Pele' não vem porque Shainberg não oferece aquilo que esperávamos de um filme sobre Diane Arbus, mas sim por ele se satisfazer em nos dar justamente o clichê mais rasteiro da artista".