Sinopse: O filme começa com uma narração às escuras onde ficamos sabendo que seu personagem principal - o narrador da história - que jamais será mostrado, é um homem que sofreu um acidente e, como num passe de mágica, foi transportado para o ano de 1800. Enquanto ele observa a cena, um marquês francês do século XIX o vê e lhe pergunta o que se passa. Como ambos estão meio perdidos com a situação inusitada, eles seguem juntos pelos corredores que vão surgindo e vão adentrando as salas expositivas do Museu Hermitage de São Petesburgo, na Rússia. Eles olham quadros, conversam com visitantes do museu e observam cenas históricas da Rússia. Serão 300 anos resumidos ali com a presença de Pedro, o Grande; de Catarina, a Grande; de Catarina II; Nicolau; Alexandre; a última ceia dos Romanov e o grande baile que encerra o filme.
A câmera é o olho de alguém, de Sokurov, presume-se, pois dela provêm os comentários, poucos porém mordazes. A história que se descortina não é contínua. Ora estamos no museu, em meio aos quadros, ora na corte.
A empreitada é de difícil reconhecimento para o espectador que, como eu, desconhece a história do país. (...) Existe, assim, um duplo movimento, de continuidade e descontinuidade. A continuidade, enunciada pelo tratamento formal. A descontinuidade, pelo deslocamento, errático em aparência, do diplomata pelo palácio.
Comentário: Aleksandr Sokurov (1951) é um cineasta russo. Assisti dele o ótimo "Moloch" (1999). Desta vez vou conferir "Arca Russa" (2002).
Trata-se de um filme que conta a história da Rússia czarista durante seus 97 minutos de duração, rodados num único plano-sequência através de 35 salas do belíssimo museu Hermitage de São Petesburgo, na Rússia. Isso é inédito na história do cinema. Algo semelhante foi feito por Hitchcock em "Festim Diabólico", porém lá há pequenos planos com emendas estratégicas.
Inácio Araújo crítico da Folha SP nos diz: "'Que país é este?' é a atônita pergunta que nós, brasileiros, fazemos. Talvez seja também a de Aleksandr Sokurov, ao percorrer o museu Hermitage, antigo Palácio de Inverno. Sua câmera segue o Estrangeiro, um diplomata de não se sabe de que tempo, cuja capacidade consiste em se deslocar por momentos da história russa, ao mesmo tempo em que se move pelas salas do palácio, encontrando czares como Pedro, o Grande, Catarina 2ª, Nicolau 1º, frequentando bailes, assistindo a cerimônias solenes etc.A câmera é o olho de alguém, de Sokurov, presume-se, pois dela provêm os comentários, poucos porém mordazes. A história que se descortina não é contínua. Ora estamos no museu, em meio aos quadros, ora na corte.
A empreitada é de difícil reconhecimento para o espectador que, como eu, desconhece a história do país. (...) Existe, assim, um duplo movimento, de continuidade e descontinuidade. A continuidade, enunciada pelo tratamento formal. A descontinuidade, pelo deslocamento, errático em aparência, do diplomata pelo palácio.
O todo é envolvido pela questão sobre a identidade russa. Seria um país oriental, eslavo ou um país europeu. Estamos em São Petersburgo, ex-capital do império, fundada no início do século 18 por Pedro, o Grande, e signo desse dilema Ásia/Europa (pois Pedro via a Rússia como um país europeu).
E é de Europa que se trata nos bailes, na coleção de arte. Seria porém uma Europa de segunda classe? É esse o outro aspecto do dilema de Sokurov, seja pelo que nos mostra como pelo que omite.
Por omissão entenda-se o período da Revolução Russa, os 70 anos de comunismo que fizeram da ex-URSS um polo mundial e provavelmente a levaram ao isolamento temido por Pedro, o czar. E tal fantasma, mesmo implícito, frequenta o palácio de Sokurov.
Mas o que interessa ao realizador é a renovação das dúvidas e angústias sobre a identidade e o destino desse país antes e depois da revolução. Angústias profundas, a julgar pela cena final, em que um horizonte pelo menos sombrio se descortina diante de nossos olhos, momento em que o filme se volta para o futuro sem otimismo, e em que aqueles fantasmas que frequentavam o palácio calam-se definitivamente. E em que seu silêncio produz a sensação de um país à deriva".
E é de Europa que se trata nos bailes, na coleção de arte. Seria porém uma Europa de segunda classe? É esse o outro aspecto do dilema de Sokurov, seja pelo que nos mostra como pelo que omite.
Por omissão entenda-se o período da Revolução Russa, os 70 anos de comunismo que fizeram da ex-URSS um polo mundial e provavelmente a levaram ao isolamento temido por Pedro, o czar. E tal fantasma, mesmo implícito, frequenta o palácio de Sokurov.
Mas o que interessa ao realizador é a renovação das dúvidas e angústias sobre a identidade e o destino desse país antes e depois da revolução. Angústias profundas, a julgar pela cena final, em que um horizonte pelo menos sombrio se descortina diante de nossos olhos, momento em que o filme se volta para o futuro sem otimismo, e em que aqueles fantasmas que frequentavam o palácio calam-se definitivamente. E em que seu silêncio produz a sensação de um país à deriva".
O que eu achei: "Arca Russa" (2002) é uma realização cinematográfica impressionante, tanto pela ambição formal quanto pela riqueza histórica e cultural que carrega. Filmado em um único plano-sequência, o filme nos conduz por três séculos da história russa enquanto percorremos os salões do Museu Hermitage, em São Petersburgo. Essa escolha estética não é apenas uma proeza técnica; ela confere à obra um fluxo contínuo, quase hipnótico, que nos envolve completamente e transforma a experiência em algo profundamente orgânico. A cada sala, a cada encontro com figuras históricas e momentos decisivos, Sokurov nos convida a refletir sobre a passagem do tempo, sobre o esplendor e a fragilidade da cultura e da memória. Não há pressa nem didatismo: a câmera desliza com naturalidade, permitindo que os diálogos, os figurinos deslumbrantes e a arquitetura monumental componham um quadro vivo, cheio de nuances e camadas. É cinema que dialoga com a pintura, com a história e com a filosofia. Além do impacto visual, "Arca Russa" tem uma melancolia serena que o torna ainda mais fascinante. Ao mesmo tempo que celebra a grandiosidade artística e cultural da Rússia, o filme também parece sussurrar sobre a impermanência de tudo isso. Sokurov constrói, assim, uma obra-prima em que forma e conteúdo se entrelaçam de modo raro, criando um espetáculo contemplativo e profundamente poético. Imperdível.
