Sinopse: O detetive aposentado John Scottie (James Stewart) sofre de um terrível medo de alturas. Certo dia, um amigo pede a John que siga sua esposa (Kim Novak). Ele aceita a tarefa e começa a segui-la por toda parte. Ela demonstra uma estranha atração por lugares altos, levando o detetive a enfrentar seus piores medos. John começa a acreditar que a mulher é louca, com possíveis tendências suicidas, quando algo estranho acontece nesta missão.
Comentário: Alfred Hitchcock (1899-1980) foi um diretor e produtor cinematográfico britânico. Amplamente considerado um dos mais reverenciados e influentes cineastas de todos os tempos, Hitchcock foi eleito pelo The Telegraph o maior diretor da história da Grã-Bretanha e, pela Entertainment Weekly, o maior do cinema mundial. Conhecido como "Mestre do Suspense", dirigiu em torno de 53 longas-metragens ao longo de seis décadas de carreira, parte dela na Inglaterra, parte nos EUA. Tornou-se também famoso também por conta das frequentes aparições em seus filmes e pela apresentação do programa "Alfred Hitchcock Presents" (1955-1965). Assisti dele os seguintes filmes:
- as obras-primas: "Os Pássaros" (1936), "Festim Diabólico" (1948) e "Janela Indiscreta" (1954);
- os ótimos: "O Inquilino" (1927), "Chantagem e Confissão" (1929), "Sabotagem" (1936), "Jovem e Inocente" (1937), "A Dama Oculta" (1938), "A Sombra de Uma Dúvida" (1943), "Interlúdio" (1946), "Disque M para Matar" (1954) e "O Homem Que Sabia Demais" (1956);
- os bons: "Os 39 Degraus" (1935), "O Agente Secreto" (1936), "A Estalagem Maldita" (1939), "Correspondente Estrangeiro" (1940), "Pavor nos Bastidores" (1950) e "O Terceiro Tiro" (1955).
Desta vez vou conferir "Um Corpo Que Cai" (1958), o filme número 4 da lista dos 100 Essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: "Hitchcock, o mestre do suspense. A alcunha caiu tão bem ao diretor britânico que pouca gente se dá conta de que ele foi, de fato, um mestre do cinema. Até o início dos anos 1950, sua carreira havia sido marcada por thrillers psicológicos, pela habilidade em manipular os medos da plateia e por uma sofisticação na encenação, enriquecida por uma visão de mundo amarga, feita de sentimentos de culpa e pecado, tingida com uma ironia britânica. O público sempre o adorou, mas a crítica considerava seus filmes sem substância. Até que um grupo de redatores da revista Cahiers du Cinéma, tendo à frente os futuros cineastas François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Claude Chabrol, revelou que desde as origens a obra do diretor havia sido construída com inteligência e estilo inconfundíveis. Seus integrantes cunharam, a partir daí uma teoria que identificava o diretor inglês como autor, da mesma maneira que artistas de outros campos, como escritores e pintores, são considerados autores de seus trabalhos. Depois de títulos geniais, como 'Janela Indiscreta, feito em 1954, Hitchcock alcançou o ápice em 'Um Corpo Que Cai'. A trama segue o policial Scottie (James Stewart), afastado da profissão por ser vítima de acrofobia (meda de altura), que lhe impede o exercício do cargo. Convidado por um antigo colega, ele aceita a tarefa de seguir os passos da esposa deste, Madeleine (Kim Novak), que se supõe uma reencarnação de uma antepassada cujo comportamento estranho culminou em suicídio. Revelar a segunda parte da trama seria estragar o prazer. Mas basta deixar claro o jogo que Hitchcock propõe ao espectador, de identificação por meio do olhar de Scottie, que espreita uma ação e se envolve emocionalmente nela, do mesmo modo que nós quando estamos sentados no cinema. É um filme sobre a imagem e o poder dela na manipulação de nossas percepções, uma encenação de um drama e a maneira que nós o vivenciamos como se fizéssemos parte dele. Ou seja, aqui Hitchcock leva ao extremo a lógica que utilizou para produzir emoções, ao mesmo tempo em que expõe o mecanismo que o cinema recorre para obter tais efeitos".
O que eu achei: "Um Corpo Que Cai" (1958) é mais um daqueles filmes que vão pra lista das obras-primas de Hitchcock. A construção atmosférica do longa é magistral, Hitchcock cria um clima de mistério e obsessão desde os primeiros minutos, conduzindo o espectador por um emaranhado psicológico sem jamais perder o controle da narrativa. A direção de fotografia de Robert Burks, com destaque para os tons de verde e vermelho, dá ao filme uma estética única e reforça os estados emocionais dos personagens. A trilha sonora impecável de Bernard Herrmann intensifica a sensação de vertigem e paixão obsessiva, funcionando quase como um personagem dentro da trama. Durante o desenvolvimento da história, nota-se um ritmo e suspense bem calibrados, alternando momentos de contemplação e intensidade, mantendo a tensão mesmo quando parece desacelerar. A história explora temas como obsessão, identidade e manipulação, tornando Scottie e Madeleine figuras profundamente humanas e enigmáticas. Há efeitos visuais inovadores para a época: o famoso “zoom dolly” para simular a vertigem virou referência histórica no cinema. Cada movimento de câmera e cada escolha de enquadramento tem propósito, reforçando a sensação de desequilíbrio e fatalidade. O final é impactante, a conclusão trágica e abrupta dá ao filme uma força dramática e um peso emocional duradouro. Apesar de ser um filme de 1958, sua abordagem psicológica e estética o mantém atual e fascinante até hoje. Foi uma alegria saber que os negativos originais do filme, deteriorados pelo tempo e pela má conservação, foram restaurados completamente em 1996, a um custo de um milhão de dólares, por Robert Harris e James Katzos. O mundo agradece pois é outro filme imperdível do diretor que super merece ser preservado.
