Sinopse: Walt Kowalski (Clint Eastwood) é um veterano da Guerra da Coréia que agora está aposentado. Sua esposa acaba de falecer e ele passa o tempo fazendo consertos em casa, bebendo cerveja e indo mensalmente ao barbeiro (John Carroll Lynch). Ele é a síntese da decadência. Rabugento e egoísta ele vê seu bairro sendo, pouco a pouco, invadido por orientais descendentes de Hmong, etnia que habita o sudeste asiático. Ele é um dos poucos brancos que ainda restam no bairro. Seu desprezo pela vizinhança é abalado quando seu vizinho Thao (Bee Vang) entra para uma gangue e tenta roubar seu carro, um Gran Torino ano 72 que Kovalski retirou diretamente da Ford quando ele trabalhava lá.
Comentário: Clint Eastwood (1930) é um cineasta e ator americano. Assisti dele os ótimos "Menina de Ouro" (2004) e "A Conquista da Honra" (2006) e o bom "A Troca" (2008). Desta vez vou conferir "Gran Torino" (2008).
“Gran Torino” (2008) é ambientado em um bairro operário de Detroit em processo de transformação social e cultural. O longa não é baseado em uma história real nem é adaptação de livro: trata-se de um roteiro original, escrito por Nick Schenk, concebido como um drama contemporâneo sobre convivência, conflito geracional e choque cultural nos Estados Unidos do pós-industrialismo.
Um dos aspectos mais marcantes do filme é a presença da comunidade Hmong, uma etnia originária principalmente das regiões montanhosas do Laos, Vietnã e Tailândia. Durante a Guerra do Vietnã, muitos Hmong foram aliados das forças norte-americanas em operações secretas, o que levou, após o conflito, a uma grande diáspora. A partir dos anos 1970 e 1980, milhares se estabeleceram nos EUA, especialmente no Meio-Oeste, em estados como Minnesota, Wisconsin e Michigan, contexto diretamente explorado pelo filme.
“Gran Torino” também se destaca pelo elenco em grande parte formado por atores Hmong não profissionais, escolhidos para dar maior autenticidade cultural às relações retratadas.
O título faz referência ao automóvel Ford Gran Torino, símbolo de uma era industrial americana já em declínio, funcionando como elemento central da ambientação e da identidade do protagonista.
Lançado no mesmo ano de "A Troca" (2008), o filme se tornou um dos maiores sucessos comerciais da carreira de Eastwood.
O que eu achei: Em “Gran Torino” (2008), Clint Eastwood constrói um drama direto e deliberadamente clássico sobre choque cultural, envelhecimento e redenção. O filme acompanha um veterano de guerra amargo e preconceituoso que se vê forçado a conviver com vizinhos de origem Hmong, e encontra nessa relação uma inesperada transformação pessoal. Eastwood aposta numa narrativa simples, quase programática, sustentada mais pelo peso simbólico do personagem do que por complexidades dramáticas. O resultado é bom, eficiente, mas irregular. Há momentos genuinamente fortes, sobretudo quando o filme aborda solidão, culpa e a dificuldade de adaptação a um mundo em mudança. Por outro lado, muitos conflitos são resolvidos de forma esquemática, e o tom didático em torno do aprendizado moral do protagonista enfraquece parte do impacto. A encenação é econômica, mas também rígida, e alguns diálogos soam excessivamente explicativos. “Gran Torino” funciona mais como um filme de tese do que como um drama plenamente orgânico. Tem relevância temática, força simbólica e carisma graças à presença de Eastwood, mas não alcança a densidade emocional ou a ambiguidade dos melhores trabalhos do diretor. Um filme significativo, mas aquém de ser memorável.
