8.6.25

“Piano de Família” - Malcolm Washington (EUA, 2024)

Sinopse:
Acompanha a vida da família Charles na pacata casa comandada pelo tio Doaker (Samuel L. Jackson) no estado de Pittsburgh. O ano é 1936, auge da Grande Depressão, e a herança da família – um estimado piano de madeira – divide opiniões e gera conflitos entre os irmãos. De um lado, Boy Willie (John David Washington) quer vender o aparelho para comprar as terras onde seus ancestrais trabalharam como escravizados. Do outro, sua irmã Berniece (Danielle Deadwyler) quer mantê-lo, já que na peça está talhada a história e os rostos de seus antepassados.
Comentário: Malcolm Washington (1991) é um cineasta norte-americano, filho do famoso ator Denzel Washington. Após se formar na Universidade da Pensilvânia e no American Film Institute, dirigiu o curta-metragem “Benny Got Shot” (2017) e videoclipes. “Piano de Família” (2024) é sua estreia na direção de longas-metragens.
Tudo começou quando Denzel Washington adquiriu os direitos de adaptação das obras do dramaturgo americano August Wilson. A primeira adaptação que ele lançou foi "Um Limite Entre Nós" (2016) com o próprio Denzel Washington na direção; a segunda foi "A Voz Suprema do Blues" (2020) que contou com a direção de George C. Wolfe e agora “Piano de Família” (2024), que representa a estreia de Malcolm Washington, filho de Denzel, na direção.
Como as duas primeiras adaptações conquistaram três Oscars, “Piano de Família" (2024), cuja peça recebeu o Prêmio Pulitzer, surgiu com grandes expectativas de reconhecimento, especialmente por trazer no elenco dois atores que trabalharam numa recente montagem dessa peça na Broadway: John David Washington (que também é filho de Denzel) e Samuel L. Jackson.
Por ser uma adaptação de uma peça teatral, boa parte do longa se passa dentro de um único cenário: a casa de Doaker (Samuel L. Jackson). Ele é nosso anfitrião, mas está longe de ser o protagonista de fato. Essa missão cabe aos atores John David Washington (que interpreta Boy Willie) e a Danielle Deadwyler (que interpreta Berniece), dois irmãos que possuem opiniões diferentes sobre o que fazer com o piano da família: enquanto ele quer vender o aparelho para comprar as terras onde seus ancestrais trabalharam como escravos, ela quer mantê-lo, já que na peça está talhada a história e os rostos de seus antepassados.
A trama mistura drama e terror sobrenatural, tratando de legado, memória e reparação histórica num conto sobre as dores e os traumas mal resolvidos da escravidão.
No elenco, além dos três atores já citados, estão também Ray Fisher, Michael Potts, Erykah Badu, Skylar Aleece Smith, Jerrika Hinton, Gail Bean e Corey Hawkins. A trilha sonora ficou a cargo do Alexandre Desplat.
O que disse a crítica: Francisco Carbone do site Cenas de Cinema avaliou com 1,5 estrelas, ou seja, ruim. Escreveu: “Por melhor que esteja o elenco (e Danielle Deadwyler mais uma vez se prova um dos mais inquestionáveis talentos da nova geração, enquanto John David Washington finalmente entrega uma performance digna das mostradas por seu pai), ‘Piano de Família’ não consegue sustentar seu conflito. A saída final, que parece conversar com o 2024 tão significativo dentro do gênero, não revela aos seus tipos nada que possa acordá-los para uma nova verdade interna. Estamos diante de um grito de alerta de um povo que não consegue manufaturar suas dores. Seria um resultado muito mais interessante na teoria do que acaba por se realizar na prática”.
Ygor Monroe do site Caderno POP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “’Piano de Família’ é um filme que faz pensar, mas que também cativa pela força do seu drama humano. Mais do que um simples conflito familiar, é um estudo sobre como lidamos com nossas histórias pessoais e coletivas. Para quem acompanha as adaptações de August Wilson produzidas por Denzel Washington, este é mais um exemplo de como o autor segue relevante e poderoso no cinema”.
O que eu achei: Se a palavra do momento é nepobaby, aqui temos quatro exemplos: o diretor Malcolm Washington, dois atores - John David Washington e Olivia Washington – e a produtora executiva Katia Washington, todos filhos do Denzel Washington com a atriz Pauletta Washington, igualmente vista em cena. A história é mais uma adaptação de um texto do dramaturgo americano August Wilson. Mais uma, porque Denzel adquiriu os direitos de adaptação de três obras dele: "Um Limite Entre Nós" (2016) que o próprio Denzel Washington dirigiu; "A Voz Suprema do Blues" (2020) que contou com a direção de George C. Wolfe e agora “Piano de Família” (2024), que representa a estreia de seu filho na direção de um longa. A trama é tão boa quanto as outras duas. Gira em torno do conflito que se instaura entre dois irmãos sobre o que fazer com o piano deixado de herança pelo pai. Enquanto Boy Willie (John David Washington) quer vender o aparelho para comprar as terras onde seus ancestrais trabalharam como escravizados, sua irmã Berniece (Danielle Deadwyler) quer mantê-lo, já que na peça está esculpida a história e os rostos de seus antepassados. Apesar do nepotismo, o resultado vale ser visto. A direção de Malcolm Washington, só não é perfeita nos flashbacks que contam a origem do instrumento, já que somos metralhados sem respiro por um sem número de nomes e de acontecimentos que requerem uma atenção mais do que redobrada. Tirando isso achei muito oportuna a ideia de misturar terror sobrenatural à trama, algo que tem sido uma tendência e aqui funcionou perfeitamente, além dos números musicais também muito agradáveis de assistir. Apesar disso, o maior mérito está mesmo no texto. John David Washington, que já havia representado essa peça no teatro, está excelente no papel de Boy Willie, assim como sua irmã gêmea Olivia que aparece em um dos flashbacks. Aliás todo o elenco está bem afiado. Mais do que filhos de Denzell, o que temos aqui são os filhos, filhas e netos da escravidão. Vale ver.