3.5.25

“O Leopardo das Neves” - Marie Amiguet & Vincent Munier (França, 2021)

Sinopse:
 
No alto do planalto tibetano, entre vales inexplorados e inacessíveis, encontra-se um dos últimos santuários do mundo selvagem, onde vive uma fauna extraordinária e desconhecida. O renomado fotógrafo da vida selvagem Vincent Munier e o aventureiro e romancista Sylvain Tesson, exploraram por várias semanas esse local em busca desses animais únicos, dentre eles o leopardo das neves, um dos felinos mais raros e difíceis de se registrar.
Comentário: Marie Amiguet é uma bióloga francesa que investiu em uma vida de viagens, navegações e empregos improváveis nas Antilhas, África e América do Sul, até decidir fazer documentários sobre a vida selvagem. “O Leopardo das Neves” é seu primeiro longa-metragem.
Vincent Munier (1976) é um fotógrafo de vida selvagem e documentarista francês. Entre seus trabalhos mais notáveis ​​estão as fotografias de lobos-árticos e leopardos-das-neves . Ele codirigiu o filme.
Matheus Mans do site Esquina da Cultura publicou uma matéria dizendo que “documentários do National Geographic sobre animais na natureza selvagem sempre seguem um caminho bem similar: câmeras escondidas, geralmente camufladas, que conseguem colocar o espectador dentro do cotidiano dos animais. É o leão correndo atrás da zebra, o veado fugindo do predador, o pássaro embelezando a vegetação e por aí vai. ‘O Leopardo das Neves’ é um filme (...) que amplia as possibilidades do cinema sobre natureza. (...)
O documentário acompanha Vincent Munier, um renomado fotógrafo da vida selvagem, que sai em uma jornada ao lado do escritor e aventureiro Sylvain Tesson em busca dessa criatura magnífica que dá nome ao longa-metragem: o leopardo-das-neves. Ao longo de 92 minutos, ‘O Leopardo das Neves’ mostra esses dois homens viajando pelas planícies frias do Tibete em busca de vestígios dessa criatura tão rara, tão bela, tão singular.
A partir desse objetivo, que guia os primeiros minutos da produção, temos praticamente dois filmes em um. Primeiramente, há a busca em si. Somos apresentados a imagens belíssimas, em uma fotografia assinada pela própria [diretora] Marie Amiguet, que ajudam a colocar o espectador no coração dessa terra e do ambiente do leopardo-das-neves. É difícil não sentir o impacto dessas imagens, que se assemelham ao que há de melhor nas produções do National Geographic.
No entanto, como dito, há uma ânsia de ir além das produções da Disney. Amiguet, como em um segundo filme, foca na personalidade, nas opiniões e nas ânsias desses dois personagens acompanhados pela câmera. (...) Dos 92 minutos, muito é dedicado ao blá-blá-blá de Vincent Munier e Sylvain Tesson. Falas sobre paciência, perseverança e coisas do tipo vão complementando as imagens paradisíacas do Tibete”.
O filme ganhou o César de Melhor Documentário em 2022.
O que disse a crítica: Ricardo Jorge Fonseca do Jornal de Notícias gostou. Disse que o “documentário sobre vida selvagem eleva o gênero ao patamar da poesia e da meditação existencial. Na sua busca pelo leopardo das neves, o escritor Sylvain Tesson (que assinou também um livro que se entrelaça com o filme, ‘A Pantera das Neves’, edição Bertrand) e o fotógrafo Vincent Munier não se deparam só com as paisagens austeras e majestáticas do Tibete; descobrem a distância que o humano se encontra hoje da natureza e refletem sobre virtudes perdidas como a paciência e a perseverança”.
Michel Gutwilen do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Ele achou o resultado muito potente emocionalmente e escreveu: “justamente pela consciência de que sua aparição se dá em uma circunstância quase que milagrosa, como o destino quisesse que aqueles homens cruzassem frontalmente com aquele animal raro no mundo. Se o plano e contraplano de uma troca de olhares é um dos recursos mais usados da história do Cinema, seu uso aqui é especial, pois ele ressignifica toda a lógica do filme em mostrar esses homens tentando estar um passo à frente da natureza. O contraplano não é o leopardo das neves, mas sim o homem. Se ele achou que estava observando esse tempo todo, na verdade era ele que estava sendo observado. Com seu olhar de superioridade que é mais significativo do que qualquer palavra dita, aquele animal tão majestoso deixa claro: os verdadeiros selvagens somos nós”.
O que eu achei: Não tenho palavras para expressar o quão lindo é esse documentário. Com trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis, vamos passear por uma locação de tirar o fôlego de tão espetacular: as terras altas do Tibete. Nela, vamos acompanhar por 92 minutos o fotógrafo de natureza Vincent Munier juntamente com o escritor Sylvain Tesson, trocando ideias enquanto caminham por essas magníficas paisagens, tentando encontrar e documentar o esquivo leopardo-das-neves, uma espécie nativa do Tibet à beira da extinção. Munier apresenta a Tesson a sutil arte de esperar a partir de um ponto cego, rastreando diversos animais belíssimos e encontrando a paciência para avistá-los, enquanto enfrentam um frio intenso, com temperaturas que chegam a -30°C. Ao longo de sua jornada os dois homens refletem sobre o lugar da humanidade entre essas criaturas magníficas. Se eles estão à procura delas, na verdade o que fica claro é que são elas que os observam: afinal, quem são esses dois estranhos, o que eles querem de nós? Com muita perseverança eles finalmente avistam o leopardo-das-neves. Seu rosto felino altivo demonstra sua esperteza, seus sentidos já indicavam a ele a presença de humanos estranhos à região, com seus cheiros, vozes e gestos e fica claro que ele só se entregou à visualização porque ele consentiu e não porque os dois aventureiros quiseram. Em meio a essas imagens sublimes aprendemos que a paciência é uma virtude elegante e negligenciada que deveríamos praticar mais e que a natureza precisa ser reverenciada, sem esperarmos nada dela, mas sim nos deliciando com a poesia que dela surge, contentando-se com o mundo tal qual ele é e lutando para que ele permaneça. Mais do que um documentário, o filme finaliza como uma meditação e uma grande homenagem aos animais e àqueles que dedicam suas vidas para protegê-los. Super recomendo.