18.11.14

"A Infância de Ivan" - Andrei Tarkovski (URSS, 1962)

Sinopse: Durante a Segunda Grande Guerra, os russos tentavam combater a investida nazista em seu território. Nas frentes soviéticas, Ivan (Nikolai Burlyayev), um garoto órfão de 12 anos, trabalha como um espião, podendo atravessar as fronteiras alemãs para coletar informação sem ser visto, e vive sob os cuidados de três oficiais russos. Mas, após inúmeras missões e com um desgaste físico cada vez maior, os oficiais resolvem poupar Ivan, mandando-o para a escola militar.
Comentário: Andrei Tarkovski (1932-1986) é um cineasta russo, filho do poeta russo Arseny Alexandrovich Tarkovski e da atriz Maria Ivanova Vishnyakova. Após se formar em cinema ele dirigiu, ainda na União Soviética, sete longas-metragens e três curtas. Conta-se que sua convivência com as autoridades soviéticas nunca foi pacífica, tendo alguns dos seus filmes encontrado sérios problemas de distribuição interna. Por conta disso, depois que ele rodou “Stalker” (1979), Tarkovski optou por passar os seus derradeiros anos no Ocidente o que explica porquê seus dois últimos filmes foram rodados fora: “Nostalgia” (1983) ele fez na Itália com a chancela da RAI e “O Sacrifício” (1986) ele rodou na Suécia. "A Infância de Ivan" (1962) é o primeiro filme que vejo dele.
Segundo o site Wikipédia, "o jovem e desconhecido, na época, Andrei Tarkovski emocionou plateias e a crítica internacional com seu primeiro longa metragem 'A Infância de Ivan'. Foi o grande vencedor do Leão de Ouro em Veneza, desbancando filmes dos consagrados Godard, Kubrick e Pasolini". Miguel Forlin escreveu para o Estadão que "de todas as contradições que caracterizam 'A Infância de Ivan', uma permanece: dada a propensão natural dos seres humanos à guerra e autodestruição, talvez também seja na sua essência que esses ímpetos assassinos e suicidas se encontrem. Estaríamos, portanto, condenados a destruir e a renascer, mas com o perigo de desenvolver, cada vez mais, armas que não dizimarão apenas regiões, mas o mundo em sua totalidade. Se, em 'A Infância de Ivan' (...), estão representados os perigos da ocupação nazista em alguns países europeus, em 'O Sacrifício', último trabalho do cineasta, é uma guerra nuclear que assombra o protagonista. E o temor de que não haja nem homens nem a natureza para recomeçar de novo".
O que eu achei: “A Infância de Ivan” (1962) é um dos primeiros grandes testemunhos do talento singular de Andrei Tarkovski e já carrega em si a marca inconfundível de sua poesia visual. O filme combina a dureza da guerra com uma sensibilidade poética rara, retratando a infância perdida de Ivan de forma profundamente humana. A alternância entre a realidade brutal do front e as sequências oníricas, que revelam os fragmentos de inocência e lembranças do garoto, dá à obra uma força emocional devastadora. Tarkovski não se limita a narrar a tragédia de um menino, mas transforma essa experiência em reflexão universal sobre a perda, a memória e a resistência da alma. A construção visual é de uma beleza extraordinária: os contrastes entre luz e sombra, a composição dos planos e o uso da natureza como extensão dos estados de espírito de Ivan tornam cada cena uma pintura em movimento. A fotografia em preto e branco, ao mesmo tempo realista e lírica, amplia a intensidade das emoções, trazendo uma dimensão quase espiritual ao drama. Tarkovski consegue equilibrar lirismo e brutalidade com uma naturalidade impressionante, sem nunca recorrer ao sentimentalismo fácil. O resultado é um filme que transcende o gênero de guerra e se afirma como obra de arte completa, capaz de tocar profundamente pela sua dimensão estética e pela força de sua narrativa. “A Infância de Ivan” é mais que um retrato de um menino em meio ao caos: é uma meditação sobre a perda da pureza em tempos sombrios e sobre a capacidade do cinema de transformar dor em beleza. Sem dúvida, uma obra-prima digna da máxima admiração. Redundante dizer que é imperdível.