5.10.13

"O Bandido da Luz Vermelha" - Rogério Sganzerla (Brasil, 1968)

Sinopse: Jorge (Paulo Villaça), um assaltante de residências de São Paulo, apelidado pela imprensa de "bandido da luz vermelha", desconcerta a polícia ao utilizar técnicas peculiares de ação. Sempre auxiliado por uma lanterna vermelha, ele assalta as vítimas, tem longos diálogos com elas e protagoniza fugas ousadas para depois gastar o fruto do roubo de maneira extravagante. Encurralado, ele recorre a medidas extremas.
Comentário: Rogério Sganzerla (1946-2004) foi um cineasta, roteirista e produtor brasileiro. Sátira, absurdo, subversão narrativa e colagem foram marcas registradas de sua estética cinematográfica, que o tornou conhecido como um representante do Cinema Marginal, um movimento contracultural brasileiro dos anos 1960 e 1970. Ele foi fundador e figura central da Bel-Air Filmes, uma produtora/coletivo criada em 1970, no Rio de Janeiro, em parceria com Júlio Bressane e Helena Ignez. Na sua cinematografia constam filmes como “A Mulher de Todos” (1969), “Sem Essa, Aranha” (1970), “Tudo É Brasil” (1997) e “O Signo do Caos” (2003). "O Bandido da Luz Vermelha" (1968) é o primeiro filme que vejo dele.
O longa é considerado um marco do chamado Cinema Marginal (ou Udigrudi). Lançado no final da década de 1960, ele se insere em um contexto de ruptura estética e narrativa no cinema nacional, dialogando com a cultura pop, o cinema policial, o rádio sensacionalista e a linguagem fragmentada da mídia urbana.
O filme não é uma adaptação literária, mas é inspirado livremente em fatos reais, mais especificamente nos crimes do assaltante João Acácio Pereira da Costa, conhecido pela imprensa como o “Bandido da Luz Vermelha”, que atuou em São Paulo nos anos 1960.
Sganzerla não busca fidelidade biográfica: a figura real serve como ponto de partida para uma construção ficcional e alegórica, misturando crime, sátira, crítica social e experimentação formal.
O protagonista é interpretado por Paulo Villaça, em um registro performático e fragmentado, distante do realismo convencional. Além de Sganzerla na direção e no roteiro, o filme conta com nomes importantes do cinema brasileiro da época, como Helena Ignez, Jorge Loredo (o Zé Bonitinho) e Pagano Sobrinho.
A montagem é um elemento central da obra, marcada por cortes abruptos, colagens sonoras, narração radiofônica e interferências gráficas.
Produzido com baixo orçamento e grande liberdade criativa, “O Bandido da Luz Vermelha” tornou-se uma obra-chave para compreender o cinema brasileiro dos anos 1960 e a postura iconoclasta de Sganzerla frente às formas tradicionais de narrativa e representação.
O que disse a crítica: Carim Azeddine da Revista Contracampo escreveu: "Ainda hoje, ver ou rever 'O Bandido da Luz Vermelha' dá a impressão de que se está diante de um marco, um divisor de águas. A diferença com os outros filmes contemporâneos, flagrante, ainda opera com força. O humor inteligente e debochado, escrache de um filme que não quer se levar a sério, o complexo tecido de referências, citações, gigantesca colagem de tudo que rodeava um jovem brasileiro urbano em 1968, a montagem complexa, virtuosística, quase experimental, o esvaziamento psicológico e narrativo da trama ainda hoje contrastam radicalmente com todo o cinema que então se fazia (e se faz) no Brasil. Um filme que aponta nitidamente para o que viria logo em seguida: a radicalidade criativa do chamado Cinema Marginal". 
O que eu achei: Trata-se de uma obra-prima que redefine os limites do cinema brasileiro ao romper deliberadamente com a narrativa clássica, o realismo psicológico e qualquer noção confortável de gênero. Inspirado livremente em um caso real, o filme não busca explicar o bandido, mas desmontar o próprio espetáculo da criminalidade fabricado pela mídia, pelo discurso policial e pela cultura urbana. A fragmentação, o excesso de vozes, a colagem sonora e visual não são mero exibicionismo formal: são o próprio sentido do filme. Sganzerla transforma o caos em método. A montagem agressiva, a narração radiofônica sensacionalista e o humor corrosivo produzem uma crítica feroz à sociedade do espetáculo, ao autoritarismo e à banalização da violência. O bandido deixa de ser um indivíduo e passa a funcionar como síntese de uma cidade, de um país e de um momento histórico marcado pela paranoia, pelo controle e pela desinformação. Nada é estável: identidades, verdades e discursos se atropelam, refletindo um Brasil urbano em colapso simbólico. O que torna o filme uma obra-prima é justamente sua recusa a envelhecer. Mais de meio século depois, “O Bandido da Luz Vermelha” (1968) continua radical, inquietante e profundamente atual. É cinema pensado como linguagem viva, política e indisciplinada, que não pede compreensão imediata, mas confronto. Um filme que não se limita a retratar seu tempo, ele o implode, e com isso permanece indispensável.