Sinopse: Berlim, novembro de 1923. Abel Rosenberg (David Carradine) é um trapezista judeu desempregado, que descobriu recentemente que seu irmão Max (Hans Eichler) se suicidou. Logo ele encontra Manuela (Liv Ullmann), sua cunhada. Juntos eles sobrevivem com dificuldade à violenta recessão econômica pela qual o país passa. Sem compreender as transformações políticas em andamento, eles aceitam trabalhar em uma clínica clandestina que realiza experiências em seres humanos.
Comentário: Ingmar Bergman (1919-2007) é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Sua produção engloba em torno de uns 60 filmes. Assisti dele as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957) e "Persona" (1966). Desta vez vou conferir "O Ovo da Serpente" (1977).
Segundo Luiz Santiago, do Cine Revista, "produzido pelo badalado Dino De Laurentiis (...), com colaboração germano-americana, 'O Ovo da Serpente' (...) é a melhor reprodução cinematográfica da República de Weimar e do surgimento do nazismo na Alemanha.
O cineasta sueco escreveu o roteiro sob meticulosa pesquisa histórica, e nele, retratou com muita fidelidade os primeiros passos de uma sociedade que já dividida, desembocaria nas mãos do nacional-socialismo a partir de 1933. (...)
Bergman constrói com impecável riqueza de detalhes o mundo sangrento, paranoico e instável que era a Alemanha de 1923, ano em que se passa o seu filme, no período de 3 a 11 de novembro, semana do Putsch de Munique. (...) O realismo com que Bergman nos apresenta a Berlim de 1923 é espantoso.
Os figurinos de Charlotte Fleming também merecem destaque, pela adequação dramática e imagética perfeitas. (...)
'O Ovo da Serpente' é um supremo exercício cinematográfico, com atuações irreparáveis - inclusive do elenco de apoio - e com a louvável direção de Ingmar Bergman, que usou de seu profundo conhecimento da alma humana para transformar em celuloide o sentimento de uma época, fazendo-o de forma única e magnífica".
O que eu achei: "O Ovo da Serpente" (1977) é uma das obras mais sombrias, incômodas e visionárias de Ingmar Bergman. Um filme que, mesmo frequentemente subestimado dentro de sua filmografia, revela-se hoje como uma de suas criações mais perturbadoras e politicamente lúcidas. Ambientado em Berlim, em 1923, durante a República de Weimar, o longa mergulha em um momento histórico de colapso moral, econômico e psicológico, mostrando o nascimento do horror que viria a dominar a Alemanha poucos anos depois. É nesse terreno instável que Bergman constrói uma atmosfera de decomposição, medo e desumanização. Acompanhamos Abel Rosenberg, um artista judeu à deriva, interpretado com intensidade contida por David Carradine, vagando por uma cidade onde a miséria, a violência e o desespero parecem impregnar o ar. O título do filme - inspirado na famosa metáfora de Shakespeare - sintetiza perfeitamente a proposta: observar o mal ainda em estado embrionário, antes de sua eclosão definitiva. A Berlim de "O Ovo da Serpente" é um organismo doente, onde experimentos científicos, vigilância, exploração e indiferença moral coexistem como sintomas de uma sociedade à beira do colapso ético. A direção de arte expressionista, a fotografia opressiva e o ritmo deliberadamente lento reforçam essa sensação de asfixia constante. Longe de ser um drama histórico convencional, o filme funciona como uma advertência atemporal. Bergman utiliza o passado para falar diretamente ao presente, sugerindo que o autoritarismo e a barbárie não surgem de forma abrupta, mas se desenvolvem silenciosamente, normalizados pela apatia coletiva. "O Ovo da Serpente" é um filme desconfortável mas essencial. Uma obra-prima sombria, rigorosa e profundamente política, que confirma a capacidade única de Bergman de transformar angústia histórica em cinema de alta qualidade.
O que eu achei: "O Ovo da Serpente" (1977) é uma das obras mais sombrias, incômodas e visionárias de Ingmar Bergman. Um filme que, mesmo frequentemente subestimado dentro de sua filmografia, revela-se hoje como uma de suas criações mais perturbadoras e politicamente lúcidas. Ambientado em Berlim, em 1923, durante a República de Weimar, o longa mergulha em um momento histórico de colapso moral, econômico e psicológico, mostrando o nascimento do horror que viria a dominar a Alemanha poucos anos depois. É nesse terreno instável que Bergman constrói uma atmosfera de decomposição, medo e desumanização. Acompanhamos Abel Rosenberg, um artista judeu à deriva, interpretado com intensidade contida por David Carradine, vagando por uma cidade onde a miséria, a violência e o desespero parecem impregnar o ar. O título do filme - inspirado na famosa metáfora de Shakespeare - sintetiza perfeitamente a proposta: observar o mal ainda em estado embrionário, antes de sua eclosão definitiva. A Berlim de "O Ovo da Serpente" é um organismo doente, onde experimentos científicos, vigilância, exploração e indiferença moral coexistem como sintomas de uma sociedade à beira do colapso ético. A direção de arte expressionista, a fotografia opressiva e o ritmo deliberadamente lento reforçam essa sensação de asfixia constante. Longe de ser um drama histórico convencional, o filme funciona como uma advertência atemporal. Bergman utiliza o passado para falar diretamente ao presente, sugerindo que o autoritarismo e a barbárie não surgem de forma abrupta, mas se desenvolvem silenciosamente, normalizados pela apatia coletiva. "O Ovo da Serpente" é um filme desconfortável mas essencial. Uma obra-prima sombria, rigorosa e profundamente política, que confirma a capacidade única de Bergman de transformar angústia histórica em cinema de alta qualidade.
